Nos idos de vinte e cinco, ainda havia quem confundisse “escola de rede pública” com “Escola Pública”, e quase todo o mundo (toda a gente) “achava” que escolas eram prédios com salas de aula. Para obstar ao “achismo” e no pressuposto de que “a formação dos indivíduos não se restringe ao espaço físico escolar”, elaborei uma proposta, que integrava a vida comunitária e suscitava o envolvimento e a articulação de todas as instituições e associações públicas e privadas, que tornassem a educação pública, de fato, um direito subjetivo, conforme estabelecia a Constituição – que se fizesse “Escola Pública”.
O “Novas Rotas” foi um projeto de verdadeira Escola Pública, integrado na Escola Básica Integrada das Capelas, na Ilha de São Miguel, no arquipélago dos Açores.
A minha amiga Conceição praticava aprendizagem em comunidade e o projeto assentava nos pressupostos teóricos da educação holística, na Lei de Bases e no Currículo Regional dos Açores, tendo por inspiração o projeto da Ponte e o do Projeto Âncora.
Em 2045, importa fazer a memória de iniciativas efetivamente caraterizadas como de Escola Pública. Em 2012, a Conceição levara colegas educadores à Ponte. Professores, alunos, assistentes operacionais e encarregadas da educação promoveram uma angariação de fundos. Organizaram jantares, lanchinhos, rifas, mercadinhos, feiras de usados, arrematações, lavagem de carros, venda de produtos hortícolas… Regressados aos Açores, deram início ao projeto “Sementes para o Sucesso”, que visava introduzir alterações ao nível da gestão pedagógica, de espaços de aprendizagem, na avaliação e nas metodologias.
Os pais dos alunos tinham assinado um “compromisso de adesão ao projeto”. Mas, apesar de ter sido sancionado cientificamente por especialistas da área das Ciências da Educação, o projeto não foi aprovado pelo Conselho Pedagógico da EBI, não chegando a ser implementado - o diretor Mariano ainda não havia chegado.
Em 2015, fui fazer uma “palestra” em Ponta Delgada. Debateram-se desafios da Escola desse tempo e se mostrou manifesta a necessidade de alterar o modelo de escola concebida no século XIX. Nesse encontro, a Conceição lançou o repto de os presentes se juntarem, para tentarem implementar um projeto da natureza de “Sementes para o Sucesso” em outra unidade orgânica.
Professores e pais se reuniram para tomar decisões, com vista à criação de uma escola alternativa à dita “ tradicional”. O número de adesões foi aumentando e o projeto Novas Rotas começou a tomar forma. Na Páscoa de 2016, viajei para as Capelas, para uma ação de formação organizada e financiada pelos professores do projeto. Regressado ao Brasil, a autoformação cooperada foi complementada pela formação presencial facultada pelo núcleo regional do MEM.
Apesar de contingências desfavoráveis, os pioneiros do Novas Rotas continuaram unidos, motivados e disponíveis para abrir novos caminhos. Uma Petição Pública recolheu mais de mil assinaturas e deu entrada na Assembleia Legislativa, em 2017. A publicação de artigos na imprensa local, a divulgação do projeto na televisão, audiências com órgãos de Governo, a apresentação do projeto em encontros, culminou com a sua apresentação e a sua aprovação pelo Conselho pedagógico da EBI de Capelas.
Estávamos já em 2018. Em agosto, assisti à azáfama de pais e professores, adaptando e construindo espaços, criando condições de implementação do projeto na Quinta do Norte.
Voltei em 2023, para acompanhar o relançamento do projeto e a sua expansão dentro e fora dos Açores.
