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Fortaleza, 14 de junho de 2045

E foi chegado o momento de praticar uma Didática da Concretização de Utopias, algo acessível a todos aqueles que assumissem o princípio que dizia que a única certeza que poderíamos ter era que tudo estava em permanente mudança. Já o Luiz Vaz o dizia:

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / Muda-se o ser, muda-se a confiança / Todo o mundo é composto de mudança / Tomando sempre novas qualidades.”

Tratava-se de uma Didática testada ao longo de cinco décadas de sistemática repetição de erros, experienciada no chão de escolas onde uma nova educação surgia, em lugares onde despontava uma Nova Humanidade.

Enfim! Poderia retirar-me de cena. O drama transformador duraria ainda uns vinte anos, exatamente quantos passaram desde que o vosso avô passou a acompanhar aprendizagens alheias e se remeteu para uma aprendizagem de si.

Já longe vai o tempo de esperança e resiliência – em 2045, os ecos de ignomínia e de ilusórias promessas se apagaram. Ainda não vivemos na Terra Prometida pelos anunciadores de uma Nova Era, mas um horizonte de utopias nitidamente se configura.

Mas, vamos à Didática… Dela farei um resumo resumido, para uso de vindouros fazedores de presentes futuros. 

A leitura poderá ser fastidiosa para vós, queridos netos, que continuais arredados do universo antropagógico, mas as iniciativas que o vosso avô propôs (ou recomendou), vai para vinte anos, propiciaram terreno firme ao caminhar empreendido por educadores sedentos de mudança.

Após a constituição de um “núcleo de projeto”, que reunia todos os participantes diretos, o projeto tomava a forma de “círculos de aprendizagem”. Acaso houvesse um professor vivo na escola mas próxima, era-lhe dada a mão fraterna que lhe permita criar o que chamávamos de “turma piloto”. 

Seguia-se a aprovação de quatro documentos: uma matriz axiológica, uma Carta de Princípios, a “gramática” da prática de tutorias, o projeto da instituição e o seu regulamento Interno, bem como uma minuta de Termo de Autonomia.

Este núcleo documental era enviado aos titulares de órgãos Direção, Gestão e Administração, acompanhado de proposta de análise conjunta e de diálogo.

Em seguida, educadores e agentes comunitários elaboravam uma “linha de base da qualidade da educação” da escola e do município – a situação educacional era caótica e nem paliativos e medidas reformistas conseguiam disfarçar os contornos da crise… que era um projeto.

Identificadas as mazelas da rede pública e particular de ensino, um projeto de formação era entregue aos responsáveis pelos centros de formação de professores.

Recorrendo aos préstimos do google maps, a equipe de projeto efetuava um levantamento de necessidades e dos potenciais educativos da comunidade (pessoas, lugares, espaços possuidores de saberes e saberes-fazer passíveis de partilha). E uma rede de comunidades de aprendizagem se constituía – não vos esqueçais que redes eram pessoas, como as escolas eram pessoas…

Internamente, cada turma-piloto negociava os seus acordos de convivência, aquelas “regras” consideradas ser necessário instituir, para a instalação de um ambiente favorável à aprendizagem – atividade completada com a introdução de dispositivos básicos de relação.

Para obstar à intromissão de “corpos estranhos”, era criado em cada município, um “Grupo de Trabalho” ao qual competia criar condições de efetiva concretização dos projetos e a sua avaliação – Esse GT também era instituído visando acolher propostas de diretrizes de política pública.

(completarei a lista de tarefas nas próximas cartinhas)

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