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Leiria, 21 de junho de2045

Nos idos de vinte e cinco, era exponencial o crescimento dos chamados “centros de explicações e de estudo”. Também aumentava o “bournout” e o suicídio juvenil. Era permitido o “ensino individual” e havia empresas estrangeiras a ensinar, à distância, alunos portugueses e brasileiros.

Famílias “dissidentes” possuidoras de elevado poder de compra protegiam os seus filhos, pagando aquilo que a Constituição dizia ser direito de todos e gratuito. 

A escola (dita) pública, criada para garantir equidade, reproduzia um modelo escolar (e de sociedade) excludente. Entretanto, surgiriam saudáveis reações à insustentável situação. 

A amiga Magda havia dito que o diretor Luís era pessoa sensível à necessidade de transformar a construção social prussiana numa nova construção social. Pude confirmar que se tratava de um educador de raiz e de um ditoso diretor, pois havia no quadro da escola professores a quem se podia chamar professor. Gente inquieta, curiosa e que, apesar dos pesares, se disponibilizava para se reelaborar culturalmente. 

Naquela manhã de maio, feito o convite à mudança, foram muitas as perguntas dos professores: 

“Como se poderá concretizar essa utopia?

Como se tornará permanente e sustentável?

Qual a formação necessária?

Será feita alguma sensibilização?”

Disse-lhes que não pretendia sensibilizar, ou convencer. Que acreditava terem tomado uma decisão ética e que, a partir daquele momento, eu era mais um elemento de uma equipe de projeto. 

Cuidadoso, pois era experimentado nas andanças da direção, o Luís me ajudou a identificar zonas de autonomia relativa. Concebeu um plano de caraterísticas intermédias entre aquilo que a burocracia ministerial permitia e o que seria do domínio da utopia. E, enquanto o prudente Luís ia contornando burocráticas armadilhas, para criar círculos de aprendizagem na sua escola, eu tinha os meus estrábicos olhos pousados no Bairro do Loureiro. 

A “Manuel da Maia” foi uma das escolas de referência, que impulsionaram o aparecimento de novos e inovadores projetos.

A saga pedagógica lusa acompanhou a evolução de projetos da outra margem do Atlântico, contrapondo ao “home schooling” anglo saxônico um “community schooling” latino. 

A educação passou a ser, efetivamente, da responsabilidade da tríade escola-família-sociedade. A Escola, o Poder Público e a Universidade convergiram num projeto de humanização. Os projetos das escolas se articularam com áreas como a Saúde Púbica e Ambiente e a Arte e Cultura – era prova provada de que ainda havia professores dispostos a tomar uma decisão ética, projetando a sua “versão sua no futuro”, sem desistir, quando encontravam “coisa difícil”.

Esse projeto iria passar por provações várias. À semelhança de outras iniciativas potencialmente inovadoras, também nessa escola se fariam sentir as caraterísticas de um pérfido sistema e dos seus serventuários instalados em órgãos de direção, gestão e administração.

No setembro de vinte e cinco, a corrida aos supermercados recomeçara. As famílias faziam contas de subtrair, para ver se um salário seria suficiente para a compra de mochilas, “material” e inúteis livros didáticos

“The show must do on!” – o supermercado “pedagógico” florescia, palestrantes, assessores, consultores e quejandos aumentavam a sua conta bancária, empresas abútricas acumulavam lucros, sindicatos erguiam protestos e os ministros vinham a público dizer que o início do ano letivo fora um êxito.

Netos queridos, custa acreditar, mas era isto o que acontecia nos idos de vinte e cinco.

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Tendo sido a Ponte a primeira escola a conseguir transitar de práticas do paradigma da instrução para o paradigma da aprendizagem, vi-me na necessidade de “explicar o modo” de “transitar”. E acompanhei processos de Transformação Vivencial, na transição do Núcleo de Iniciação para o de Consolidação. No contexto de uma prática formativa isomórfica, agi com os professores do mesmo modo que eles iriam agir com os seus alunos. No início dos anos noventa, eu havia elaborado um “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Consolidação”. Embora ele tivesse sofrido correções e atualizações, parti desse “Perfil” para o adequar a uma Nova Construção Social, nos idos de vinte e três.  Aqui vos deixo parte de um documento, que com extraordinários educadores analisei, um quarto de século após a sua redação. Perdoai a ingenuidade do texto e alguns equívocos nele contidos. Não vos esqueçais de que foi elaborado há mais de cinquenta anos. “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Con...