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Montemor, 22 de junho de 2045

Valerá a pena voltar a uma boa notícia publicada no Diário de Notícias de junho de 23, fazer a memória de um tempo de profundas transformações: 

“Na Moita da Roda, o envolvimento com a comunidade ganhou espaço, através da Associação Pró-Futuro da Escola da Moita da Roda e dos Conqueiros.” 

Por lá andavam os filhos de Michael Amado, um ex-militar, agora dedicado às áreas do desenvolvimento pessoal e social. 

"O que acontece ali é único" – dizia o Michael ao DN, referindo-se ao projeto pedagógico – A escola "tradicional" não lhe fazia sentido. Nem a ele, nem a centenas – ou mesmo milhares de famílias. 

“Foi essa certeza, de resto, e uma busca constante por alternativas que fizeram Andreia Ribeiro chegar ao trabalho do professor José Pacheco. A partir da Batalha (onde mora) tem mobilizado outros pais para esta mudança, que espera ver ocorrer no âmbito da Escola Pública.”

O grupo promoveu, entretanto, uma tertúlia, no final de abril, e em maio convidou-me para uma série de encontros nas escolas e autarquias da região.

"A nossa batalha é por uma escola pública que integre todos. Estou convicta de que este tipo de ensino vai ajudar muito mais aqueles que estão à margem e evitar que abandonem a escola", afirmava ao DN Carla Marcos, mãe de dois alunos da escola pública, com diferentes idades, e que por isso sublinha a importância de estender estes projetos ao 2.º e 3.º ciclos. O grupo está empenhado em começar essa mudança, já no próximo ano letivo.” 

O modelo estatal de ensino confessava a sua inutilidade, tentava impor novas restrições, enquanto ativistas da educação, como a minha amiga e lutadora incansável Andreia, sabiam que seria inadmissível adiar uma mudança há muito tempo anunciada.

Era grande a euforia e havia razões para tal. Uma nova “opinião pública” emergia da apatia geral. E a minha amiga Maria era exemplo dessa ainda ténue, mas já visível, mudança no modo de pensar e repensar a Educação. possuidora de aguçado senso crítico, assim se expressava:

“É só explicar com calma, como se faz com as crianças, dar segurança de que estamos juntos no barco, dizer a verdade com sinceridade e aceitar que vamos fazer o melhor que sabemos, mas em continua aprendizagem e mudança.

Ando a estudar muito. A estudar o que observo ali dentro. Depois, uns com os outros, identificamos necessidades e exigências, e vejo, VEJO, Zé, o futuro ali à frente. Não morreremos na praia”.

Talvez sem que soubesse, a Maria acabava de referir três dos grandes princípios da formação de profissionais do desenvolvimento humano… sem precisar de ler os tratados.

É preciso cumprir com o que está escrito, e escrever o que se quer e não o que fica bonito. É um ciclo bonito, como o da água (aquela matéria dada 20 x ao longo da vida). Percebi que ha uma quantidade finita de informação no mundo, e que de facto nascem “x” pessoas ao longo da nossa história com as respostas para resolver “x” quantidade de assuntos. Quando uma morre, nasce outra, é como se fossemos apenas energia para resolver a existência.

Não querendo mitificar-te, ninguém sabe por que nasceste com a resposta de algumas coisas, tal como outros. E percebo, agora, ao trabalhar com pessoas, que sei construir peças do puzzle que estão perdidas. Fabrico soluções, é quase viciante. Não sei como sei as coisas, até porque continuo a morrer de tedio com a pedagogia. Mas, sei o que sente a coordenadora do 1º ciclo, sei explicar-lhe o que sente e aonde vamos… e que não está só - lembrarmo-nos do que é ser pessoa que sente.

Há, de facto uma brecha no tempo e espaço a preencher com amor”. 

Assim falava a minha amiga Maria.

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Ubatuba, 17 de junho de 2045

Enquanto me afastava das terras e do mar caiçaras, recordava bons momentos, reencontros, aprendizagens, e lia aquilo que a minha amiga Roze escrevera sobre o evento que preparara com muito esmero: “O Pirão das Letras acabou.  Durante três dias alimentou corações famintos por acolhimento, reconhecimento e valorização. Todos provaram da porção que precisavam. Uns gostaram mais do tempero da alegria – outros, da esperança. Teve quem também se deliciou apenas com o calor do fogo, essencial para produzir o Pirão, principalmente em tempos gélidos como os de hoje. O Pirão das Letras acabou, mas teve gente que não foi embora sem levar um tantinho dele consigo. A fartura era tanta, que deu até para levar para casa (um livro, uma memória, uma emoção, um riso, um abraço quentinho de afeto). Os braços daqueles que por três dias mexeram o pirão estão exaustos, mas as almas estão leves, como leve são os passarinhos que carregam as sementes e, assim, cumprem o propósito divino de disseminar nova ...