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Paraty, 16 de junho de 2045

Continuemos didaticamente falando… Etimologicamente, a palavra didático advém do grego “didaktikós”, a arte de ensinar. Assim sendo, da Didática me servi para transmitir uma “gramática da mudança”, um “caminho das pedras” já percorrido por quem alçara pontes sobre abismos da ignorância.

Como vos disse em cartinhas anteriores, no dealbar da década de vinte, eu havia abandonado a via do confronto com o sistema e me distanciado de discussões estéreis, concluindo que não deveria insistir em ruturas, mas promover integração paradigmática. Isto é: rejeitando a cartesiana segmentação do sistema de ensinagem, não abdicava das virtudes do instrucionismo, juntando-lhes as contribuições dos paradigmas da aprendizagem e da comunicação.

Contornando o teoricismo reinante e fundamentalismos pedagógicos, não precisava de demonizar a sala de aula – dela partíamos para instalar praxis coerentes.

Ao mesmo tempo que os tutores elaboravam roteiros de estudo, industriavam os seus tutorandos no reforço da metacognição: ensinavam-nos a selecionar informação pertinente, a analisar criticamente informações recolhidas, a comparar diferentes informações, a avaliar e a sintetizar dados, a comunicar descobertas, socializando as aprendizagens realizadas sob a forma de “evidências de aprendizagem”. 

Os tutores iniciavam os seus tutorados em exercícios de desenvolvimento de processos complexos de pensamento – o pensar sobre o pensar – apoiados na instalação de dispositivos de reconfiguração das práticas: o “posso ajudar”, os “grupos de responsabilidades”, a “comissão de ajuda”, a Assembleia…

Para obstar ao fenómeno de “transbordamento curricular”, era elaborado o perfil terminal do núcleo de iniciação, constituído pelo rol de aprendizagens consideradas essenciais. E ao currículo tridimensional juntava-se a prática de avaliação formativa, contínua e sistemática, no desenvolvimento de projetos de vida e co-criação de projetos comunitários alicerçados em círculos de aprendizagem de vizinhança e de proximidade.

A introdução de técnicas de resolução de conflitos (não-violência) e a prática de sociocracia criavam condições de trabalho em equipe, no desenvolvimento curricular subjetivo, comunitário e de consciência planetária.

Era incentivada a gestão autônoma de tempos e espaços, a utilização de plataformas digitais e a participação de voluntários caraterizada por uma relação positiva e de entreajuda – responsabilidade pessoal e social – aliada à gestação de círculos de aprendizagem organizados em rede de “aprendizagem à distância” (sem abdicar do presencial…).

A integração família-sociedade-escola fez-se realidade, quando instituídas “triangulações” como: escola – saúde pública e ambiente – arte e cultura, ou escola – poder público – universidade.

Repetidos processos de autoavaliação suscitaram a aquisição de conhecimentos básicos de ciências da educação e a assunção de autonomia científica, administrativa, financeira, equidade e isonomia salarial.

Para assegurar excelência acadêmica com inclusão escolar e social e contemplar as múltiplas dimensões do ser humano – racional, afetiva, emocional, estética, ética, espiritual… – procedia-se a uma definitiva erradicação do trabalho em sala de aula, de segmentações (em turmas, séries, anos de escolaridade, ciclos, de trimestre, semestre e ano letivo.

Estavam reunidas as condições de a todos garantir o Direito à Educação, de efetivar autêntica educação integral, numa verdadeira Escola Pública.

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Voltava do Rio com uma estranha sensação de “dejá vú” e, num cantinho da Internet, me aguardava um textinho do amigo Matias com o título “ O supermercado, a escola e a guerra civil”. “Para evitar o desespero e criar novos entusiasmos, para libertar as iniciativas e suscitar a criatividade, acreditamos que é hoje mais razoável decidir mudar de viatura do que esgotarmo-nos a consertar um motor definitivamente desconsertado.  A escola transformou-se num supermercado onde os adultos distribuem conhecimentos que apenas servem para ter sucesso na escola.” Esta é a tese de Philippe Meirieu e de George Marc, desenvolvida na obra “L’école ou la guerre civile”. Segundo os autores, as escolas são hoje máquinas, que tanto integram como excluem, e os professores que escolhem a profissão não têm condições para responder positivamente à imensidão de pedidos e mandatos sociais, trabalhando no mesmo modelo (no mesmo molde) escolar. Para evitar o stress e a depressão profissionais, a fuga da escola ...