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Salvador, 15 de junho de 2045

Tentando tornar menos cansativa a viagem da Sidi pelo sertão da Bahia, falamos de… Alegria. E evoquei a peculiar Alegria do Nelson, criança de precária condição social, mas sempre com um Sol de Primavera num rosto macerado pela fome e maus tratos do corpo e da alma, um rosto emanando uma Alegria genuína, como só uma criança pode expressar. 

Recontei uma estória  de um tempo em que um turbilhão de brutas notícias irrompia na comunicação social: “Criança de 2 anos atira e mata mãe enquanto brincava com arma do pai”.

Aproveitei uma pausa nos trabalhos do dia e convidei o Nelson para uma conversinha, num cantinho recatado. Abracei-o e nem precisei de lhe dizer o que sabia. Contendo o choro, o Nelson confessou o furto:

“Professor Zé, eu tenho fome. A minha mãe não tem que nos dar de comer”. 

Com um restrito e discreto grupo de professores e vizinhos, cuidamos de que nunca mais a fome açoitasse o estômago da mãe e dos irmãos do Nelson. Mas outros açoites o Nelson recebia. Chegava pontualmente atrasado à escola. Todos os dias, o professor se sentia tentado e no direito de o interpelar, de lhe perguntar das razões do invariável atraso. Até que, não resistindo à tentação, mas com muito jeitinho, arriscou a pergunta: 

“Por que chegaste só agora?” 

O Nelson explicou e o professor ficou a saber que, na noite da véspera e mais uma vez, o pai havia "arreado uma coça na mãe", que ela até tinha ficado "com pisaduras nas pernas e um olho deitado abaixo". 

No meio da confusão, o Nelson, como o mais velho de três irmãos de diferentes pais, fizera uma retirada estratégica, refugiara-se com o resto da família num tugúrio de zinco e tijolo, até passar a refrega.  

Explicou e o professor ficou a saber como o Nelson conseguiu, já noite adentro e com o pai ausente no "café de senhor Tião", ajudar a mãe "a ligar a perna e a dar o biberão ao Tiaguinho". E concluiu:

“Acordei com muito sono, professor, porque a Carlinha, a minha irmã do meio, não nos deixou dormir. Chorou a noite toda. E, como nós não temos dinheiro para pagar a eletricidade, não temos luz. Tivemos de esperar pela luz do sol”.

“E por que foi que a Carlinha chorou tanto?” – perguntei.

“Os ratos roeram-lhe uma orelhinha”. 

O Nelson apercebeu-se de que eu estava com dificuldades de achar palavras para preencher o silêncio, que então se fez. E acrescentou: 

“Mas não importa, Professor Zé. A minha vida é muito triste. Mas, quando eu venho para a escola, sinto cá dentro uma coisa... Olhe, parece mesmo alegria!”

Urgia converter as nossas escolas em espaços de bem-estar, onde não se fragmentasse a realidade, nem se banalizasse gestos de humanidade, num ambiente caracterizado pela serenidade, pelo cuidar. 

São de Pestalozzi estas palavras: “O meu coração estava preso às crianças, a sua felicidade era a minha felicidade – elas deviam ler isso na minha fronte, perceber isso nos meus lábios, a cada instante do dia”. E Sopelsa contrapõe: “dificilmente encontramos uma criança que não anseie entrar na escola, cheia de sonhos e fantasias. Mas a maioria das crianças sente a escola como algo que oprime, ridiculariza e discrimina”. 

Atingimos um estado de espírito, que pode ser considerado de felicidade, quando aliamos realização pessoal à aprendizagem das coisas, em comum concretizada – a minha realização é realização com os outros. Felicidade é fazer amigos, dar-se sem medida, aceitar e ser aceite, viver em harmonia consigo e com os outros.

“Vamos fazer uma escola feliz” foi o nome que as crianças deram ao primeiro jornal da Escola da Ponte. Com os alunos, compreendemos que havia muitos modos de fazer escolas felizes. 

gria diferente da alegria comum.

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