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Ubatuba, 17 de junho de 2045

Enquanto me afastava das terras e do mar caiçaras, recordava bons momentos, reencontros, aprendizagens, e lia aquilo que a minha amiga Roze escrevera sobre o evento que preparara com muito esmero:

“O Pirão das Letras acabou. 

Durante três dias alimentou corações famintos por acolhimento, reconhecimento e valorização. Todos provaram da porção que precisavam. Uns gostaram mais do tempero da alegria – outros, da esperança. Teve quem também se deliciou apenas com o calor do fogo, essencial para produzir o Pirão, principalmente em tempos gélidos como os de hoje.

O Pirão das Letras acabou, mas teve gente que não foi embora sem levar um tantinho dele consigo. A fartura era tanta, que deu até para levar para casa (um livro, uma memória, uma emoção, um riso, um abraço quentinho de afeto).

Os braços daqueles que por três dias mexeram o pirão estão exaustos, mas as almas estão leves, como leve são os passarinhos que carregam as sementes e, assim, cumprem o propósito divino de disseminar nova vida. E gratos, muito gratos mesmo, por tanta gente que ajudou a engrossar esse lindo caldo – dentre eles, você.

O Pirão acabou – mas estava tão bom e gostoso  que todo mundo percebeu o quanto um pirãozinho, além de fazer bem, nos dá força, nos sustenta, nos nutre. Moral da história: vamos ter que fazer mais!

Obrigado por fazer parte deste momento tão especial para a literatura da nossa região. O Pirão das Letras não aconteceria sem você. Não mesmo. E nem era o nosso desejo.

Até breve! Logo mais, a gente volta da nossa cozinha com mais novidades!

Com afeto e admiração dos organizadores do Pirão das Letras:

Adilson Zambaldi, Jorge Ivam e Roze Cabral.”

Premonitório final de texto! No ano da graça de quarenta e cinco, o “Pirão das Letras” completa vinte anos de existência. Ganhou raízes, contribuiu para o enriquecimento cultural de Ubatuba e região, inspirou outros “pirões”. Apenas foi preciso que uma educadora-escritora-poeta-e tudo metesse mãos à obra.

No decorrer do Pirão, a Roze disponibilizou exemplares de um livro da sua autoria, cuja leitura nos dava vontade de ser criança. O “LuAmiga” era uma singela, uma deliciosa estória, um livro escrito para crianças, que era uma amorosa mensagem de adulto, de uma avó “corujinha” com alma de poeta.

Naquele tempo se dizia que eu tinha fama de casamenteiro, porque unia os desunidos, porque juntava pessoas, que eu cria serem afins. E, como aproximava seres extraordinários, dei a conhecer à Roze o meu amigo João, outra alma sensível, exímio contador de estórias.

O amigo João disse-me que eu deveria escrever um livro para a infância. Eu já havia escrito mais de uma centena de obras para adultos, livros sobre Educação e umas “Cartas para a Alice” – e lhe disse que escrever para crianças era uma responsabilidade que eu talvez não pudesse assumir. 

Outrora, eu ouvira Mia Couto falar de um menino de rua, que lhe devolveu um livro que ele vira nas mãos de uma estudante à saída da escola, assim descreveu o episódio:

“Notando a minha fotografia na capa, esse menino acreditou que a estudante me tinha roubado o livro. Me comoveu esse menino que atravessou a cidade para me devolver algo que, no entender dele, me pertencia (…) Mais do que saber ler, será que sabemos contar histórias? Ou sabemos simplesmente escutar histórias onde nos parece reinar apenas silêncio?

Lembrei aqui o episódio do menino de rua porque tudo começa aí, na infância. A infância não é um tempo, não é uma idade, uma coleção de memórias. A infância é quando ainda não é demasiado tarde. É quando estamos disponíveis para nos deixarmos encantar.

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