Num “10 de Junho’ de há vinte anos (“Dia de Camões”), Lídia Jorge nos alertava para a possibilidade de loucos atingirem o poder, num discurso em que condenou o racismo, a escravatura e a cultura da mediocridade.
Na sua intervenção citou Shakespeare, Camões e Cervantes, “três autores que perceberam bem que, em dado momento, é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência”.
“O poder demente, aliado ao triunfalismo tecnológico, faz que a cada dia, a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, se sinta como a terra é disputada. E os cidadãos são apenas público que assiste a espetáculos em ecrãs de bolso. Por alguma razão, os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores e os seus ídolos são fantasmas”.
Lídia não se referia a futuros desmandos. Já nessa altura, eram muitos os loucos instalados nas esferas do poder. E ela denunciava “a fúria revisionista que assaltava pelos extremos, um pouco por toda a parte” e que colocava em causa “os fundamentos institucionais científicos, éticos e políticos. O princípio da exemplaridade - essa conduta que fazia com que o rei devesse ser o mais digno entre dignos - está a ser subvertido pela cultura digital. O escolhido passou a ser o menos exemplar, o menos preparado, o menos moderado, o que mais ofende” – e concluiu, numa alusão ao presidente norte-americano:
“O chefe de Estado de uma grande potência, durante um comício, disse “adoro-vos, adoro os pouco instruídos”. E os pouco instruídos aplaudiram”.
Lídia destacou a atualidade de Camões, considerando “reconfortante saber que os professores o continuavam a ler às crianças”.
No mesmo dia do discurso, onze pessoas eram assassinadas a tiro dentro de uma escola. A prefeita da cidade de Graz, na Áustria disse ter sido um aluno da instituição quem atirou em colegas e professores e depois cometeu suicídio. Mais uma tragédia a juntar a muitas outras. Dez anos antes, também em Graz, um homem conduziu m carro contra uma multidão, matou três pessoas e feriu dezenas. Foi condenado à prisão perpétua e se matou na prisão.
No Brasil, era exponencial a criação das chamadas escolas “cívico-militares”. O “campo de batalha” em que a escola da sala de aula se transformara se abria para a remilitarização da ensinagem - remilitarização, porque a escola tinha por origem remota a escola prussiana do século XVIII. Fora concebida correspondendo a necessidades sociais da Prússia Militar. O imperador decretou “o ensino militar obrigatório aos cinco anos”. As crianças foram confinadas em casernas a que deram o nome de escolas. Cultivava-se uma rígida disciplina e seguia-se um regime autoritário usuário de severas punições. Obedientes a um regime disciplinar inquestionável e respeitadores de uma hierarquia imposta, os jovens eram treinados para a guerra.
Nessas escolas, a convivencialidade humana estava fundada numa relação vertical, as cadeiras enfileiradas e havia o toque de entrada e saída de espaços de confinamento governados por regras impostas arbitrariamente.
Na sociedade dos idos de vinte, cativa da inversão de valores, vivíamos o pesadelo da criação das nefastas escolas cívico-militares, apoiadas por gente padecendo de menoridade cidadã, que confundia autoridade com autoritarismo.
Mas, não há mal que sempre dure… O autoritário instrucionismo (escolar e militar) deu lugar à edificação da utopia: uma escola onde não imperasse a ordem imposta, mas prevalecessem a dignidade e a liberdade.
