Pular para o conteúdo principal

Vila Franca de Xira, 11 de junho de 2045

 

Num “10 de Junho’ de há vinte anos (“Dia de Camões”), Lídia Jorge nos alertava para a possibilidade de loucos atingirem o poder, num discurso em que condenou o racismo, a escravatura e a cultura da mediocridade.

Na sua intervenção citou Shakespeare, Camões e Cervantes, “três autores que perceberam bem que, em dado momento, é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência”.

“O poder demente, aliado ao triunfalismo tecnológico, faz que a cada dia, a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, se sinta como a terra é disputada. E os cidadãos são apenas público que assiste a espetáculos em ecrãs de bolso. Por alguma razão, os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores e os seus ídolos são fantasmas”.

Lídia não se referia a futuros desmandos. Já nessa altura, eram muitos os loucos instalados nas esferas do poder. E ela denunciava “a fúria revisionista que assaltava pelos extremos, um pouco por toda a parte” e que colocava em causa “os fundamentos institucionais científicos, éticos e políticos. O princípio da exemplaridade - essa conduta que fazia com que o rei devesse ser o mais digno entre dignos - está a ser subvertido pela cultura digital. O escolhido passou a ser o menos exemplar, o menos preparado, o menos moderado, o que mais ofende” – e concluiu, numa alusão ao presidente norte-americano:

“O chefe de Estado de uma grande potência, durante um comício, disse “adoro-vos, adoro os pouco instruídos”. E os pouco instruídos aplaudiram”. 

Lídia destacou a atualidade de Camões, considerando “reconfortante saber que os professores o continuavam a ler às crianças”. 

No mesmo dia do discurso, onze pessoas eram assassinadas a tiro dentro de uma escola. A prefeita da cidade de Graz, na Áustria disse ter sido um aluno da instituição quem atirou em colegas e professores e depois cometeu suicídio. Mais uma tragédia a juntar a muitas outras. Dez anos antes, também em Graz, um homem conduziu m carro contra uma multidão, matou três pessoas e feriu dezenas. Foi condenado à prisão perpétua e se matou na prisão.

No Brasil, era exponencial a criação das chamadas escolas “cívico-militares”. O “campo de batalha” em que a escola da sala de aula se transformara se abria para a remilitarização da ensinagem - remilitarização, porque a escola tinha por origem remota a escola prussiana do século XVIII. Fora concebida correspondendo a necessidades sociais da Prússia Militar. O imperador decretou “o ensino militar obrigatório aos cinco anos”. As crianças foram confinadas em casernas a que deram o nome de escolas. Cultivava-se uma rígida disciplina e seguia-se um regime autoritário usuário de severas punições. Obedientes a um regime disciplinar inquestionável e respeitadores de uma hierarquia imposta, os jovens eram treinados para a guerra. 

Nessas escolas, a convivencialidade humana estava fundada numa relação vertical, as cadeiras enfileiradas e havia o toque de entrada e saída de espaços de confinamento governados por regras impostas arbitrariamente. 

Na sociedade dos idos de vinte, cativa da inversão de valores, vivíamos o pesadelo da criação das nefastas escolas cívico-militares, apoiadas por gente padecendo de menoridade cidadã, que confundia autoridade com autoritarismo.

Mas, não há mal que sempre dure… O autoritário instrucionismo (escolar e militar) deu lugar à edificação da utopia: uma escola onde não imperasse a ordem imposta, mas prevalecessem a dignidade e a liberdade.

Postagens mais visitadas deste blog

Ubatuba, 17 de junho de 2045

Enquanto me afastava das terras e do mar caiçaras, recordava bons momentos, reencontros, aprendizagens, e lia aquilo que a minha amiga Roze escrevera sobre o evento que preparara com muito esmero: “O Pirão das Letras acabou.  Durante três dias alimentou corações famintos por acolhimento, reconhecimento e valorização. Todos provaram da porção que precisavam. Uns gostaram mais do tempero da alegria – outros, da esperança. Teve quem também se deliciou apenas com o calor do fogo, essencial para produzir o Pirão, principalmente em tempos gélidos como os de hoje. O Pirão das Letras acabou, mas teve gente que não foi embora sem levar um tantinho dele consigo. A fartura era tanta, que deu até para levar para casa (um livro, uma memória, uma emoção, um riso, um abraço quentinho de afeto). Os braços daqueles que por três dias mexeram o pirão estão exaustos, mas as almas estão leves, como leve são os passarinhos que carregam as sementes e, assim, cumprem o propósito divino de disseminar nova ...