A BNCC era uma lei necessária, indispensável até, mas aquela que foi aprovada em dois mil e dezassete não concretizaria a intenção de combater a desigualdade, nem contribuiria para alterar significativamente os péssimos indicadores de qualidade da educação
Alguns anos antes, Pedro Demo publicara um ensaio com o título “EDUCAÇÃO À DERIVA”, uma análise profunda das causas e consequências da manutenção (palavras suas) do “instrucionismo como patrimônio nacional”.
Manifestava surpresa pelo contraste entre haver tanto diagnóstico disponível e se manterem péssimos desempenhos.
No ensino médio, o aprendizado de matemática era insignificante: 9.1% em 2017. Isto é: 90% dos estudantes não aprendiam. “No Enem, apenas 53 estudantes obtiveram nota máxima em redação, dentre 4 milhões de participantes; quase ninguém”.
Assente numa rigorosa fundamentação, o mestre assim concluía, dizendo: “parece que a escola que temos é modelo intocável, acima das ideologias”.
Quando abordava a situação do Ensino Médio, o Conselho Nacional de Educação chamava a atenção para a necessidade da “recriação da escola”. A expressão “recriação da escola” constava do parecer do CNE sobre a proposta da BNCC, mas a base reforçou um modelo educacional em tudo oposto à dita “recriação da escola”, dado que, à mingua de autonomia, as escolas sobreviviam no contexto de um sistema autoritário e moralmente corrupto, que impunha a manutenção de um modelo educacional obsoleto: escola prédio, turmas, provas, salas de aula...
Quando jovem, eu perguntava por que razão deveria aprender certos conteúdos. Respondiam:
“Quando fores grande, irás precisar”.
Não precisei.
Ao longo de mais de 200 anos, a escola “instrucionista” – a da sala de aula – cometera o crime de abandono intelectual de milhões de alunos, um verdadeiro genocídio educacional.
Como “o exemplo vinha de cima”, as escolas também não cumpriam os seus projetos políticos-pedagógicos, porque esses documentos não eram políticos, nem pedagógicos. Na sua elaboração, a polis não era escutada e, em muitos casos, o PP-P era um “modelo único superiormente concebido” e imposto às escolas. A maioria dos professores não o liam, como jamais leriam a BNCC, dado que o currículo efetivamente “transmitido” era aquele que constava dos manuais didáticos. O escolanovismo e os construtivismos mal assimilados contidos nos pp-p eram contrariados pelo faz-de-conta da prática.
Ainda hoje, quando pretendo, por exemplo, recordar o nome de uma serra, onde observei belas pinturas rupestres, sou assaltado por uma decoreba sem sentido, encasquetada no meu cérebro de criança, há mais de oitenta anos:
“Suajo, Gerês, Larouco, Falperra, Cabreira, Marão, Montezinho...”
E por aí fora, numa lengalenga sem sentido, como tantas outras associadas a conteúdos da grade curricular da época, para debitar em prova. Depois da prova, esquecidos, porque a memória era esperta e a aprendizagem não era significativa, como recomendariam o Vygotsky e o Bruner que o fosse.
Quando, já nos meus sessenta anos, passeava por Trás-os Montes, avistei uma bela montanha:
“Que montanha é aquela? – eu perguntei.
O meu amigo Tozé respondeu:
“Tu não sabes?”
“Não! Eu não sei...”
“É a Serra do Larouco”.
A palavra Larouco ressoou numa sexagenária memória. Finalmente! Suajo, Gerês... Larouco! Mas nada sabia do Larouco, nem do povo que por lá morava, nem da sua cultura, nem das suas necessidades, nem nada! Apenas “sabia” uma palavra: “Larouco”.
E por aqui me quedo, netos queridos. Mas, em breve, voltarei ao assunto.
