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Caxito, 25 de julho de 2045

(continuação)

O termo “palimpsesto” tem origem no grego antigo - "aquilo que se raspa para escrever de novo", um pergaminho ou papiro cujo texto foi eliminado para permitir a reutilização. Na Idade Média, sobretudo entre os séculos VII e XII, devido ao elevado custo do material, quando o rei ou senhor feudal pretendia publicar nova lei, mandava passar cal sobre o pergaminho ou papiro, para tapar a antiga lei. E a nova lei era escrita sobre a cal seca. Porém, exposta à chuva e ao vento, a cal caía e só ficava escrita e exposta no documento… a lei antiga.

No Brasil, abriu-se uma consulta pública de um documento previamente elaborado. Colhidas milhares de sugestões de alteração – quase todas fundadas no senso comum – e de vinte e sete mil pedidos de inclusão de novos objetivos, uma BNCC cativa do velho modelo escolar foi promulgada. 

Acompanhei a elaboração da BNCC e participei em duas audiências públicas, que tinham como lema “BNCC: desafios para a implementação e combate às desigualdades educacionais”. A primeira, no auditório do CNE; a segunda, no Senado Federal. Estiveram presentes representantes do Ministério da Educação, do “Movimento pela Base” e “especialistas”.

Animado da maior boa-vontade e a pedido de um amigo, analisei as várias versões da proposta de BNCC, tendo elaborado um documento contendo construtivas críticas e sugestões. Quando soube da realização da audiência pública em Brasília, fui dos primeiros a inscrever-se através da Internet e o primeiro inscrito presencial, pois fui o primeiro a chegar ao auditório do Conselho Nacional de Educação. Porém, a manhã terminaria sem que eu fosse chamado para expor o meu parecer. Apenas “puxa-sacos” de serviço e membros de um movimento chamado “Escola sem Partido” intervieram, para tecer loas à base, proferir besteiras, ou para formular absurdas exigências.

Desta vez, não vos contarei como agi no intervalo desse encontro. Mas vos asseguro que a “metodologia” por mim utilizada resultou plenamente, pois fui dos primeiros convidados a pronunciar-se, naquela tarde. Fi-lo, fundamentando cientificamente críticas e sugestões, reafirmando a necessidade de o Brasil dispor de uma base curricular que “implementasse o combate às desigualdades educacionais”. Demonstrei que, se a introdução da BNCC contribuía para tal desiderato, a base propriamente dita, sendo instrucionista, poderia constituir-se em obstáculo à mudança.

No final da sessão, fiz entrega de um documento contendo considerações, que a leitura da proposta de base curricular me suscitara. Quero crer que as não tenham lido, nem aquelas que associações profissionais e especialistas em currículo produziram. 

No decurso dos debates, foi dito que o conteúdo da base era mera “referência” e que as escolas, no exercício da sua autonomia, dela fariam adaptações. Era bem verdade que o termo “autonomia” era referido 57 vezes na proposta de base curricular. Porém, omitia-se que, ao cabo de vinte anos, o artigo 15º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional continuava sem efeitos práticos, situação agravada pelo fato de a administração educacional não ter cumprido a meta 19 no prazo estabelecido pelo Plano Nacional de Educação.

A minha desconfiança relativamente às decisões curriculares era bem antiga, sobretudo, desde quando lera uns artigos de um pedagogo chamado Schubert, que dizia:

“Quando questões fundamentais de currículo não são dirigidas por educadores, os caprichos econômicos ou políticos formam o caminho e as práticas educacionais são governadas à revelia”.

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Tendo sido a Ponte a primeira escola a conseguir transitar de práticas do paradigma da instrução para o paradigma da aprendizagem, vi-me na necessidade de “explicar o modo” de “transitar”. E acompanhei processos de Transformação Vivencial, na transição do Núcleo de Iniciação para o de Consolidação. No contexto de uma prática formativa isomórfica, agi com os professores do mesmo modo que eles iriam agir com os seus alunos. No início dos anos noventa, eu havia elaborado um “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Consolidação”. Embora ele tivesse sofrido correções e atualizações, parti desse “Perfil” para o adequar a uma Nova Construção Social, nos idos de vinte e três.  Aqui vos deixo parte de um documento, que com extraordinários educadores analisei, um quarto de século após a sua redação. Perdoai a ingenuidade do texto e alguns equívocos nele contidos. Não vos esqueçais de que foi elaborado há mais de cinquenta anos. “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Con...