Continuemos por Monsanto, escutando as autoras do projeto.
“Vamos ao encontro da vivência de cada um. Os alunos andam mais motivados. Há uma ligação de amizade. Não têm tanta vergonha e há mais partilha e conhecimento”, diz Raquel.
Para Carla, “é mais fácil ver a criança como um ser e percebê-la mais a fundo”. Eles vêm mecanizados do ensino normal. Quando lhes perguntávamos o que queriam fazer, ficavam a olhar para nós.
“Querem que mandem neles”, diz Raquel. E Carla confirma: “Os nossos meninos ainda não conseguem dizer que querem fazer isto ou aquilo”. Mas, há alguns avanços: já vai chegando a um ponto em que nos pedem mais matéria. Na matemática os meninos do 1º ano estão a trabalhar matérias que geralmente se dão em fevereiro. Mas eles pedem. Aproveitamos a curiosidade deles para avançar”.
“E cabe aos pais decidirem os dias de descanso das crianças nas épocas em que tradicionalmente se fazem interrupções letivas. Há um diálogo constante com os pais, que estão preocupados”, diz Raquel.
O projeto tinha sustentabilidade legal. Mas, com base em ridículos normativos os meirinhos ministeriais colocavam obstáculos difíceis de transpor, porque se juntava ao autoritarismo a ignorância de políticos de duvidoso estofo moral. Falavam de “escola encapotada”.
“Somos contra o ensino individual que está a ser processado em Monsanto. Temos receios sobre o desenvolvimento académico das crianças”. Não tenho dúvida de que há uma ilegalidade pura naquela situação. É uma escola não oficial, uma espécie de escola municipal. Não existe ensino individual, mas sim ensino coletivo numa escola municipal. Os pais têm sido usados para fins políticos. Compreendo que estão felizes por terem crianças perto delas. Devem lutar pelos interesses que defendem, mas neste caso concreto não foram os pais que elaboraram o requerimento e promoveram esta solução legal. Foi feito pelo presidente da Câmara e pela vereadora da educação e pelos assessores jurídicos”.
Vítor é o pai de Carolina. Desempregado há três anos, decidiu mudar-se com a família para Monsanto por já não conseguir suportar o nível de vida da região de Lisboa, onde vivia.
“Eram 200 euros só para ela estar no infantário!”
Carolina esteve, durante um ano, no pré-escolar do complexo de Monsanto. Os pais esperavam que continuasse o 1º ciclo na vila, mas a escola básica foi encerrada. Então, juntaram-se aos outros encarregados de educação em protesto e encontraram a solução do ensino individual, com o apoio da Câmara. Três meses depois, Vítor pensa que Carolina está “muito bem”, opinião confirmada pela mãe, Susana, que nota que a filha está “mais responsável e mais autónoma”.
O pai de Carolina só quer ouvir falar do encerramento do complexo escolar de Monsanto numa condição: “Se o Ministério arranjar soluções…”. Isto porque, Vítor não tem como se deslocar 60 quilómetros para ir buscar Carolina à escola de Idanha caso ela adoeça.
A mãe de Carolina está satisfeita:
“Já conhecia este ensino e sei que lá fora se pratica muito. Trabalham os afetos. São as crianças que querem fazer trabalhos e puxam pelas professoras. Fazem saídas, põem as mãos na massa. Cativa-os mais.”
Mas, pais e professores viviam o projeto “num engano de alma que a fortuna não deixa durar muito”.
O projeto de Monsanto havia ultrapassado os limites da sala de aula e do prédio de escola. Começavam a desaparecer as interfaces costumeiras entre escola e comunidade, entre 1º ano e 2º ano, entre 1º ciclo e 2º ciclo, entre período letivo e ano letivo, entre turma A e turma B...
Por que teria de haver “turmas”?
