Pular para o conteúdo principal

Praia de Itaipuaçu 15 de julho de 2045

Quando algum professor me dizia levar a comunidade para a escola, ou que a sua escola fazia visitas à comunidade, eu perguntava: 

Acaso visitas a tua casa, ou moras nela?

Uma escola é um nodo de uma comunidade e o projeto de Monsanto era, claramente, uma comunidade. Prossigamos o acompanhamento de alunos e professores, no reconhecimento do seu território.

O destino era o Posto de Turismo, onde os alunos seriam esperados pelo cheiro de azeite quente e por uma mesa onde se encontrava um alguidar, uma batedeira elétrica, uma tigela com ovos, dois pacotes de farinha, um pacote de açúcar, um pequeno pacote de leite, um copo com aguardente e outro com azeite. 

Uma mulher de avental, cabelo bem-apanhado e desviado do rosto recebe-os e, de imediato, pede-lhes que lavem bem as mãos e arregacem as mangas. Depois, diz-lhes que vão fazer argolas mimosas.

A professora Raquel pega num copo medidor e pergunta aos alunos se este serve para tudo. Bruna, 15 anos, responde: 

“Só para os líquidos. Com os sólidos é diferente”. 

Nova pergunta: 

“Quantos ovos estão aqui?” 

Todos respondem “Quatro!”. 

Raquel aproveita o balanço: 

“E quantos faltam para a meia dúzia?”. 

Novamente, em coro:

“Dois!”.

As crianças são ensinadas a partir os ovos, a utilizar a batedeira para envolver as claras e as gemas com o açúcar. Em fila, cada um dos alunos adiciona outro ingrediente. Depois, todos dão murros na massa, que é distribuída para que possam fazer bonecos. 

Carolina não está satisfeita com o processo e volta a queixar-se: 

“Só com a forma é que dá”. 

A professora Carla, que constrói um boneco de neve de massa, responde-lhe: 

“Dá com a imaginação. É como a plasticina que fazemos na sala”.

Desta forma, dizem as docentes, as crianças aprendem de forma lúdica. No mesmo grupo há três crianças no 1º ano, outras tantas no 2º e 3º ano e duas no 4º. O facto de muitas vezes aprenderem em conjunto permite que as mais novas lidem com noções com as quais só se iriam confrontar mais à frente, como é o caso dos pesos e medidas.

As saídas do edifício escolar e as deslocações ao forno comunitário ou ao lagar ajudam ao envolvimento da escola com a comunidade e dão outra vida à vila, defendem as professoras. 

“Num local onde quase não há crianças, as pessoas dizem: “Afinal a escola tem meninos”. E eles vêm mecanizados do ensino dito “normal”.

Como referi, quando soube da existência do projeto, fui até Monsanto. Escutei depoimentos como estes:

“O modelo tradicional não estava a funcionar para estas crianças”, dizia Vanessa Gonçalves. 

E o Filipe assegurava que a escola tinha sido transformada “numa comunidade de aprendizagem, onde se privilegiavam os valores do amor, da responsabilidade e da autonomia.” 

“Não existe um horário pré-estabelecido, mas um horário que varia de criança para criança. Existe uma flexibilidade que se traduz também no planeamento quinzenal, em que a criança define os seus objetivos. Cabe também à criança perceber se está preparada para ser avaliada por um professor-tutor através de um portfólio. Nunca através de um exame.”

“Nós acreditamos que a prova não prova nada” – diz o responsável do colégio – as crianças seguem um currículo mínimo obrigatório, mas trabalham por projetos, interligando matérias de diferentes disciplinas.

O Filipe respondeu às dúvidas e medos da professora Carla e da professora Raquel, habituadas ao ensino tradicional e não totalmente certas de como fazer a transição. 

Deveriam ou não seguir um manual? Como é que as crianças planificariam as atividades? Como se fazia a avaliação? Haveria um fio condutor do currículo?

Postagens mais visitadas deste blog

Cabuçu, 23 de julho de 2044

Longe vai o tempo em que fui aprender como avaliar por portfólio. Decorria a década de noventa e eu lá ia, em longa jornada e a expensas próprias, até ao lugar onde o amigo Domingos Fernandes – que viria a ser Presidente do Conselho Nacional de Educação, em vinte e dois – partilhava a sua tese de doutoramento.  Nos fins de semana, ia até Lisboa, trabalhar com o Paulo Abrantes, que se apaixonara pela “aprendizagem por competências”, e ao Instituto de Inovação Educacional. Por trinta anos, utilizei um livrinho concebido no I.I.E., de onde constava a imagem que encima esta cartinha. Chegados aos anos vinte deste século, o portfólio já era digital, mas a avaliação permanecia tão anacrónica como décadas atrás, o que me fez recordar um textinho por mim publicado em finais dos anos noventa e que rezava assim:  “Na binária e pacata rotina aula-teste instalara-se perturbação. Os pais dos alunos perguntavam se os exames da quarta classe tinham regressado. E já toda a gente procurava no ...