Nos idos de vinte, lideranças tóxicas da administração, da gestão e da direção das escolas se constituíam em sério obstáculo à Mudança, um obstáculo bem difícil de ultrapassar, criado por um sistema hierárquico a que se juntava uma autoritária regulamentação da lei, como se verá neste breve “estudo de caso”.
No final de um ano letivo, com assiduidade plena e significativas aprendizagens realizadas, os alunos da escola de Monsanto “reprovaram por excesso de faltas”. Eu sei que parece mentira, mas aconteceu.
O sistema impunha práticas desprovidas de fundamento científico, ou mesmo legal. Ousavam tomar insanas decisões, como o despropósito da reprovação por excesso de faltas, porque incutiam medo nas famílias dos alunos e contavam com o obsceno silêncio dos áulicos das ciências da educação.
A que faltas se referiu o ministério, dado que os alunos estiveram em situação de ensino doméstico dentro de um edifício a que o ministério chamava “escola”? Conseguiria o ministério explicar por que razão alunos com 100% de assiduidade reprovavam, enquanto outros jovens aprendiam...fora do edifício da escola?
Tudo começou em 2014, quando uma escola acabada de inaugurar foi encerrada pelo Ministério de Educação. Os pais dos alunos optaram pelo ensino doméstico, o agrupamento de escolas deu luz verde ao processo e as crianças foram acompanhadas por duas professoras.
Porém, no primeiro dia de aulas do ano letivo seguinte, os pais foram informados de que o ministério não reconhecia a avaliação positiva aos alunos, atribuída pelas docentes. O ministério considerava ilegal a situação dos alunos, enquanto a Comissão de Proteção de Crianças afirmava que o alegado “abandono escolar” não fora provado.
Escutemos os intervenientes no drama.
Dos jornais:
“Em Monsanto, os pais opuseram-se ao fecho da escola e optaram pelo ensino individual, com o apoio da Câmara de Idanha-a-Nova. Oposição fala em ilegalidade. MEC diz que crianças estão em abandono.
“Estou no sítio que estou pelas crianças”, diz Raquel Cabanas, professora de 1º ciclo, agitada e nervosa. Fala das crianças com paixão e bate o pé no chão, como se procurasse afastar os problemas.”
“A nova construção social não pede isto” – insurgiu-se o Filipe, que assumiu a missão de ajudar a Raquel. Repetindo a expressão ansiosa da professora, Filipe diz-lhe, num tom pedagógico:
“Há aí muito recalcamento e uma falha grande de comunicação, desde o arranque do projeto.”
“Tem de haver separação do ensino tradicional”, diz Carla Miguel, professora de 1º ciclo, acabando por se emocionar.
“Tenho receio que o meu trabalho e o meu esforço estejam a ser postos em causa”.
Fui até Monsanto, numa visita “técnica”, mas sobretudo solidária. E o que vi? O mesmo que um jornalista que, deste modo, declarava surpresa perante a excelência do trato e a elevada qualidade do trabalho das professoras:
“Um grupo de crianças sobe a encosta íngreme de Monsanto. Os seus gritos invadem as ruas de granito, desertas. Cantam canções de Natal e queixam-se da subida.
Carolina, 6 anos, levanta a cabeça para cima, suplicante:
“Vou chamar o anjo da Guarda, para me levar lá acima”.
O destino é o Posto de Turismo, onde os alunos são esperados pelo cheiro de azeite quente e por uma mesa onde se encontra um alguidar, uma batedeira elétrica, uma tigela com ovos, dois pacotes de farinha, um pacote de açúcar, um pequeno pacote de leite, um copo com aguardente e outro com azeite.
Ainda havia a crença de que uma escola era um edifício, mas as crenças não deveriam ser fundamento de política educacional.
