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São José d’Imbassaí, 31 de julho de 2045

Não “choremos sobre leite derramado”, falemos sobre possibilidades de Mudança, começando pelo “caminho das pedras” da Escola da Ponte.

No julho de vinte e cinco, mãos amigas me encaminharam a reação a uma notícia veiculada pelo Facebook:

“Acabo de receber o relatório de avaliação externa da Escola da Ponte. A escola foi detalhadamente avaliada por uma equipa da Inspeção Geral da Educação e Ciência (IGEC) durante cinco dias e o resultado é "Excelente"!

Este projeto iniciado por José Pacheco há muitos anos em Vila das Aves, prossegue o seu caminho de inovação e suscita sempre duas perguntas: "Porque sim?" e "E porque não"?

Bravo a toda lúcida, ética e corajosa equipa da Escola da Ponte que recebeu das mãos do José Pacheco, da Anita, da Geni, uma herança que não para de valorizar. Bravo a todos os Orientadores Pedagógicos, famílias, alunos, Conselho de Gestão. Todos, todos! Parabéns, "excelente" Escola da Ponte!”

No ano letivo iniciado no setembro de 2025, o projeto “Fazer a Ponte” completaria 50 anos de existência. O que o teria permitido sobreviver no contexto de um sistema obsoleto e autoritário? Como teria escapado às tentações de um sistema moralmente corrupto? E por que não havia mais escolas como a da Ponte?

Em 2004, me afastei do projeto (fisicamente!). Nos anos que se seguiram, recebi dos novos coordenadores muitos pedidos de ajuda. Tentei ajudá-los. Porém, notava um certo “baixar de braços” perante atitudes prepotentes do Ministério e insidiosas manobras de políticos corruptos e “professores” de outras escolas, que tentavam “expulsar” a Escola da Ponte de Vila das Aves. 

Também recebia mensagens enviadas por visitantes:

“Estive na Ponte como professor voluntário e verifiquei, comparando, que o tipo de trabalho que se realizava na altura era, em minha opinião, melhor do que o atual. Por exemplo, existe diferença ao nível do trabalho dos alunos e ao nível das atitudes que eles assumem. O ambiente de trabalho nos espaços não é tão sereno como era no primeiro ano em que estive na escola. E os alunos eram mais autônomos em relação aos professores”.

Os olhares externos me inquietavam, e renovei o meu “contrato” com a minha escola, desenvolvendo formação à distância. Nesse contexto, fui reunindo depoimentos que, se disfarçavam a crise, me foram, cada vez, mais preocupado com o futuro do projeto Fazer a Ponte. Alguém escreveu:

“Não sei se consigo passar para o papel o sentimento que me tem incomodado. Por que a equipe de professores perde a motivação e autonomia diante da mudança do líder?” 

A resposta talvez pudesse ser encontrada numa entrevista que o amigo Rui Canário comigo compôs, em meados dos anos 90. A pergunta “Porque não há mais escolas como a Escola da Ponte?” talvez pudesse ser respondida pelo Rui, porque foi coautor da iniciativa de defesa da Ponte, quando o ministério tentava extinguir o projeto. Mas a morte o levou no julho de há vinte anos.


Outro Rui assim celebrou a memória do Rui:

“O Rui Canário morreu e com a sua morte perdemos um pensador emérito, não só pelos horizontes que desbravou como pela integridade moral de um pensador e de um ativista rigoroso, exigente e consequente.

Ainda que continuemos a ter o seu legado à nossa disposição, diria mesmo que incrustrado em muitos de nós, perdemos a sua clarividência e originalidade. Perdemos o seu olhar sereno, se bem que implicado, que tanto nos ajudou a ter uma referência e um rumo.

É em momentos como estes que compreendemos a finitude das palavras. É em momentos como estes que nos restam as memórias para podermos lidar com a dor.”

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