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Boa Água, 20 de agosto de 2045

(continuação da cartinha anterior)

A "escola tradicional" utiliza um modelo de avaliação que está de acordo com o trabalho que os alunos desenvolvem. E para mudar a avaliação é necessário mudar todo o trabalho escolar.

Parece-me que, no resto do seu texto, já chegou a uma conclusão muito interessante: todos os alunos têm o seu ritmo. O que nós tentamos na Ponte é que efetivamente cada aluno veja reconhecido o seu ritmo e que, paralelamente, a avaliação também seja para cada aluno uma oportunidade de aprendizagem.

Compreendo perfeitamente o que diz. A Ponte não foi a primeira escola onde trabalhei e sei que isso pode ser complicadíssimo, muito difícil, mas o que será melhor: ter diferentes ritmos dentro da "sala", ou tentar que seja o mesmo e único ritmo e vivermos no eterno dilema de "deixar alunos para trás" ou "atrasar outros alunos"?

Outra pergunta:

“Percebo que o objetivo da Ponte é proporcionar aos alunos um clima adequado, onde se constitui um marco de relações "admiráveis", em que predominam a aceitação, a confiança, o respeito mútuo e a sinceridade.

Eu poderia supor que, a partir dessas características supracitadas e das dinâmicas e atividades a que se propõe os professores e alunos da Ponte, denominar a avaliação como algo essencial para manter e melhorar a autoimagem, para assim facilitar atitudes favoráveis à aprendizagem, focando que tais avaliações sejam feitas conforme as possibilidades reais de cada um dos meninos e meninas, para que a aceitação das competências pessoais não ocorra em detrimento de uma autoimagem positiva?

Resposta de um a professora da Ponte:

Os laços que unem alunos e professores, alunos e seus pares têm de ser laços de aceitação, confiança, respeito e sinceridade. A aprendizagem efetiva apenas se concretizará num ambiente de reconhecimento e aceitação de diferentes individualidades, de respeito pelas suas opiniões, de confiança nas suas potencialidades, de apoio quando se diagnosticam dificuldades, de transparência e sinceridade quando se avaliam processos.

A avaliação regula/reorienta todas as aprendizagens: a aquisição de novos conteúdos, mas também as atitudes e comportamentos. É errôneo pensar que aprender na escola é aprender somente Inglês, Matemática, Ciências… Melhorar a "autoimagem" dos alunos (no sentido que penso ter atribuído a esta designação) poderá ter repercussões positivas no trabalho que pretendemos que os alunos desenvolvam em termos de conteúdos. Um aluno com uma baixa autoestima recusa diariamente a realização de tarefas, porque tem grandes dificuldades em conviver com a frustração de não conseguir algo, necessita da solidariedade e ajuda dos seus orientadores educativos, assim como dos seus pares. Estes, sim, irão ajudá-lo a crescer na sua individualidade, a melhorar a sua autoimagem.

Durante este ano letivo, tive um aluno que precisava ouvir "És capaz de…", "Tu consegues…", antes de iniciar qualquer trabalho que julgasse ser mais difícil. Precisará ainda que muitos outros lhe digam o mesmo, para que possa caminhar com mais autonomia e confiança.

Não acredito que haja alunos indisciplinados por força da natureza, mas há alunos que se revoltam perante o desrespeito pelas suas dificuldades e ritmos de aprendizagem.

É curioso verificar que alguns professores encaram a avaliação como um meio de amedrontar os "indisciplinados" da sua sala de aula. Lembro-me de uma professora que, sempre prevenida, carregava consigo testes que ameaçava aplicar, se as coisas não corressem como havia planeado.

(continua)

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