Pular para o conteúdo principal

Évora, 19 de agosto de 2045

Continuando a última resposta da cartinha de ontem… avaliando a avaliação que a Ponte fazia.

A avaliação pode ser efetuada de várias formas: uma conversa, um exercício escrito, a resolução de um problema etc. Tudo depende do objetivo em questão

Por outro lado, tenta-se sempre que os objetivos anteriores também sejam avaliados, de forma que a avaliação seja um processo contínuo. 

Quando um determinado aluno pensa que esgotou todos os recursos ao seu dispor para estudar um determinado assunto (biblioteca, computador, colegas), e não o conseguiu compreender, recorre ao professor, escreve o seu nome, a data e assunto em estudo na folha do "Eu preciso de ajuda". Depois, o professor dirige-se ao aluno que manifestou a dificuldade e tenta esclarecê-lo, recorrendo àquilo a que os alunos costumam chamar de "aula direta". 

Por outro lado, atitudes do quotidiano, em Assembleia, nos Debates e nas apresentações dos trabalhos constituem, também, excelentes oportunidades de avaliação. 

Nova pergunta:

“A questão da avaliação sempre me deixou intrigada. Como aplicar um mesmo tipo de avaliação a cabeças pensantes diferentes, que aprendem, entendem de formas e em tempos diferentes? Como mudar a cultura arraigada nos gestores das escolas, nos professores, nos alunos, nas famílias? 

Sou educadora matemática e estudo com minhas turmas de sétima série conteúdos da Geometria Euclidiana Plana. Para tanto, fazemos o tratamento axiomático de tais conteúdos e construímos os entes e/ou resolvemos problemas geométricos através de construções, seja com régua e compasso, seja com softwares de geometria dinâmica. 

Em uma das turmas que leciono, possuo um aluno que é portador de necessidades especiais, devido ao atrofiamento de um dos membros superiores. Esse aluno consegue fazer as atividades que os demais colegas fazem, entretanto, em um tempo diferenciado. Para ele, a escola “deu permissão” para que fosse aplicada uma avaliação em tempo diferenciado. Mas, na mesma turma, tenho, por exemplo, uma aluna que não consegue acompanhar a turma, pois ACHO que tem um “jeito” ou “tempo” diferente de aprender. 

Ela fica muito dispersa, mesmo que tente chamar atenção dela todo o tempo.

Penso que o momento de avaliação seria um importante momento de aprendizagem para ela. Gostaria de ter autonomia para assumir que o tempo dessa garota também é diferente e que a maneira de ela “brincar” com os conteúdos matemáticos também é diferente. 

Acho até que tenho tal autonomia, mas como assumir tal verdade, se não tenho tempo, nem apoio da escola no referente a horas de trabalho remuneradas para tal fim? 

Parece mesquinho da minha parte, mas tenho família para criar. E, por outro lado, crio precedentes em ter de dar as mesmas oportunidades para outras necessidades de modos do aprender. Seria extremamente frustrante não conseguir atender a todos! 

Admiro muito a vossa iniciativa de enfrentar todo um sistema e com a comunidade da Escola da Ponte dar o exemplo. Apesar das ENORMES dificuldades, podemos traçar saídas diferenciadas para o processo de educação de professores, alunos e famílias.” 

Resposta de um professor da Ponte: 

Como mudar a cultura que está arraigada nos gestores, nos professores, nos alunos, nas famílias? Esta mudança tem de ser bem pensada e estruturada. Pensarmos que tudo se muda de um dia para o outro é uma forma de não mudar. Mas, lentamente e com estudo, tudo se consegue. É possível adequar o trabalho escolar ao tipo de avaliação que fazemos. 

Nas próximas cartas, continuaremos a “explicação” do modo como a Ponte avaliava.

Postagens mais visitadas deste blog

Ipê, 23 de outubro de 2043

Pela grande amizade que nutria por um bom amigo, eu hesitava entre agir como “Advogado do Diabo” (a Vovó Ludi não permitia que o fosse), ou ser o Grilinho do Pinóquio. Fosse como fosse, não me omitia, não me quedava neutral face ao teor daquilo que suscitou um “Uau!” desse amigo: “A professora de Chase está à procura de crianças solitárias. Ela está à procura de crianças que têm dificuldades para se conectar com outras crianças. Ela está a identificar os pequenos que estão a cair nas fendas da vida social da turma. Ela está descobrindo que dons estão passando despercebidos pelos seus pares. E ela está a identificar quem está a sofrer bullying e quem está a fazer o bullying.” Cadê a novidade? Porquê um “Uau!”, se todas as escolas deveriam ser espaços produtores de culturas singulares, mas também espaços de múltiplas interações, cooperação, partilha, comunicação, algo impossível em sala de aula.  Nos idos de vinte as escolas eram, quase sempre, espaços de solidão. E a solidão dos pro...