E eis que nova crise se apresenta...
“Por que professores retomam a inércia e a dúvida de quem espera sempre um motivador? E por que se desestimulam novamente? Como tornar a equipe, motivada e autônoma, novos agentes de motivação para outros professores?”
Estes questionamentos soavam como sinais de alerta. Aposentado, eu me impedia de intervir. Prezava demasiado a autonomia da minha escola e fui adiando a manifestação de disponibilidade para ajudar a resolver problemas, que se foram acumulando.
Às interpelações de visitantes e pesquisadores, os educadores da Ponte respondiam deste modo:
“A "crise" que a Ponte está atravessando também se deve (em parte) à mudança de líder. A crise de liderança reforçou o conflito instalado. E decorrerão dois ou três anos, até que uma nova liderança seja devidamente reconhecida.
As regressões a que assisti, em projetos que acompanhei de muito perto, resultaram, quase sempre da mudança de líder. Sempre que isso aconteceu, muitos professores refugiaram-se em posições mais seguras, que o mesmo é dizer: mais acomodadas. Mas acredito que os momentos de crise são ótimos para despertar o lado criativo de todos nós.”
Também me atrevi a dar resposta perguntas como estas:
“Gostaria de saber se a crise é fruto de pressões externas ou de âmbito interno. Qual o maior desafio atualmente para a continuidade da filosofia da escola, uma vez que vocês falam da fragilidade das instituições humanas? Existe algum projeto prospetivo a fim de garantir a continuidade da Escola da Ponte?”
Respondi:
“Ao longo dos anos a escola sofreu muitas pressões externas. Houve momentos de crise agudas onde o projeto esteve realmente para ser "abatido". Mas a força da comunidade educativa impediu que tal acontecesse. Ainda recentemente esse apoio de toda a comunidade se fez sentir quando, mais uma vez, se pretendeu ameaçar a continuidade do projeto. Poderemos dizer que já nos habituamos a essas pressões.
Em relação à metodologia de trabalho é natural que os pais tenham sempre muitas reservas. Mas, na Ponte, encontram espaços de diálogo onde podem colocar as suas dúvidas, opiniões e críticas. Não criamos barreiras artificiais, a essas pressões abrimos os braços. São também elas que nos permitem melhorar constantemente.
O trabalho é visto sempre de uma perspectiva coletiva, é sempre inacabado, imperfeito. Nós somos os nossos maiores críticos. E conseguimos ser agrestes nas nossas críticas. O projeto é uma construção humana sempre sujeita a grandes tensões e conflitos. A abertura, a frontalidade, a solidariedade e amizade vão conseguindo manter uma (difícil) estabilidade.
Relativamente à continuidade do projeto, é difícil prever o futuro, dizer que está assegurada a continuidade. Mas a verdade é que temos um conjunto de orientadores motivados e um apoio (quase) incondicional dos pais. Enquanto assim for a continuidade do projeto está assegurada.
Somos um projeto com mais de trinta anos a que a tutela continua a chamar "experiência pedagógica”. Há 50 anos, a realidade da escola e da vila não era diferente daquela que caracteriza as pequenas cidades e as periferias de grandes cidades brasileiras: muita pobreza, a falta de alternativas, condições de trabalho adversas. Antigamente, onde hoje fica a Escola da Ponte, havia um "lixão". Por algum tempo, a escola funcionou junto a um odor terrível. Um projeto ambiental fez desaparecer o lixão e isto explica a pequena elevação sobre a qual foi construído um novo edifício.
Recomecemos a reconstituir a história de uma escola “diferente”.
