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Vitória, 30 de agosto de 2045

 

Não sei se entendi muito bem a respeito da avaliação, mas acredito que a avaliação deva ser contínua e cumulativa, ou seja, todos os dias o aluno poderá ser avaliado e levará em conta aquilo que ele sabe e não o que não sabe. Será que é isso?

A Ponte não era diferente de outras escolas. Em 1976, estávamos saindo de uma mudança de regime político. Os professores eram mal pagos e queixavam-se de que não podiam dar mais tempo à escola, porque tinham de ganhar proventos em outro lugar. Hoje, os professores são bem pagos e... fazem o mesmo tipo de trabalho.

No ano anterior àquele em que cheguei à Ponte, eu trabalhava numa escola bem longe de casa e o salário que eu ganhava mal dava para pagar o transporte, a alimentação e alojamento. Na Ponte, encontrei professores desmotivados, que trabalhavam de modo igual ao dos que foram seus professores (e igual ao que ainda hoje se faz na grande maioria das escolas). O que mudou?

Um dos grandes equívocos da "progressão continuada", que se confundiu com “aprovação automática” é o de que ela pode ser concretizada mantendo-se práticas de seriação e a manutenção de padrões de tempo uniformes.

A segmentação em anos de escolaridade é incompatível com a ideia de avaliação contínua, formativa e sistemática (centrada nos processos, participada...). Tempos uniformes (em sala de aula) são incompatíveis com a individualização da aprendizagem. E a avaliação deve andar "alinhada" com a aprendizagem, porque o próprio ato de avaliar é um ato de aprendizagem...

O processo de avaliação é diário, havendo dispositivos pedagógicos cuja finalidade é, claramente, esse: planos de dia e de quinzena, “Eu já sei”, “Preciso de ajuda” e outros. Contudo, em muitas outras situações de avaliação, são realizados feedback informais, só conseguidos devido aos fortes laços, aos vínculos  que se estabelecem com as crianças.

É deste conhecimento mútuo que resultam os momentos mais profícuos na avaliação. Pequenos incentivos, um gesto que reforce a sua autoconfiança, uma expressão de contentamento, um olhar de insatisfação… Por outro lado, o trabalho partilhado com o grupo de pares e o apoio que recebem destes, fomenta nos alunos um sentimento de companheirismo e de solidariedade invejáveis, dando-lhes uma motivação acrescida.

É importante valorizar o percurso feito, as iniciativas na resolução de um problema (mesmo que não resolvido), as tentativas de se superar, participando em Assembleia, ou adotando uma postura interventiva na vida da escola, entre muitos outros exemplos. Essa valorização é condição primordial na aceitação, por parte do aluno, face a qualquer outro reparo menos positivo e reestruturação do trabalho integrando estas observações.

Todos os alunos têm que rever algumas matérias/conteúdos/assuntos, seja o que for, para que possam progredir. O professor tutor acompanha o aluno nesse processo.

Em conjunto com colegas que partilhem da mesma dúvida, se discute e clarifica o problema. A nossa gestão baseia-se essencialmente no equilíbrio, para o qual contribui muito o bom-senso, uma vez que não podemos permitir que uma dúvida/temática se prolongue ad eternum. Mas também não simplificamos as aprendizagens, não lhes retirarmos significado na construção de currículo. Acredito que a avaliação é um processo – precisamos ver o que o aluno era e o que passou a ser.

Os ritmos são respeitados! O que não se atingiu num dia, pode ser aprendido no dia seguinte, sem precisar "repetir o ano”. Cada criança parte daquilo que já aprendeu para aquilo que precisa aprender. Simples, como vemos!

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