Pular para o conteúdo principal

Brasília, 25 de setembro de 2025

Em 2025, continuamos a defrontar obstáculos à Mudança e à Inovação. Os áulicos se constituem no sétimo obstáculo. Darcy assim os descreveu (creio que terá sido o autor do neologismo):
“Muitos cientistas sociais são cavalos de santo de Foucault. Não olham para o Brasil. O importante para eles é citar o Poulantzas, ou dizer o que Poulantzas pensaria. E, a partir deles, fazer discursos académicos. Mas são incapazes de olhar a realidade brasileira, de tentar entender.
Há um tipo de ciência social que é tão infecunda quanto a erudição antiga, gente que não sabia nada. Só citava. Só se lembrava do texto de um outro. Essa gente indignificava a inteligência, porque convertia a inteligência, que é um instrumento de compreensão e transformação do mundo, num ato de fruição. Era uma coisa masturbatória, muito ruim.
Ciência social em grande parte, é isso. Lamentavelmente.”
Mais de três décadas decorridas sobre o desabafo do saudoso Darcy, os áulicos continuam a infetar o campo da teoria, agem como elementos cancerígenos de um sistema em adiantado estado de putrefação.
Uma das caraterísticas dos áulicos é a incoerência. Outras caraterísticas neles poderíamos encontrar, como a arrogância e a corrupção moral e intelectual.
Pavoneiam-se nos palcos de congressos, em palestras de cuspe e power point, incitando os professores a mudar as suas práticas, a fazer uma educação do século XXI, quando, nas salas de aula, reproduzem um modelo educacional do século XIX. 
Acantonam-se em redes sociais – nichos herméticos fechados à produção de laços sociais, pois somente os “eleitos” podem falar entre si. Narcísicos, fecham-se a quem ouse propor um debate, produzindo a estagnação do diálogo. Face à crítica construtiva, se o seu ego for ferido, os teoricistas reagem com ostracismo, sarcasmo, insultos e até com tentativas de “assassinato de caráter”.
A ação de dissimulada do “áulico” é tão ou mais destrutiva do que as maldades cometidas por “alguéns”, porque muitos deles são bem-conceituados, “doutores em educação”, fazedores de opinião. 
O “teoricismo” (doença infantil da Pedagogia e antípoda do “praticismo”) afeta parte significativa de uma universidade ancilosada. Os enfermos produzem inúteis teorizações de teorias inúteis produzidas sobre teorias de teóricos, que não fazem a mínima ideia das práticas sobre as quais teorizam. 
Mas, jamais deixarei de acreditar que até mesmo os áulicos teoricistas se poderão transcender, transformando-se em seres humanos sublimes. 
“Só o que está morto não muda!” – dissera a Clarice – e a manhã de hoje, na UnB me conferiu novo alento. Arrisquei convidar professores de Matemática a tomar a decisão ética, que antecede e acompanha a reelaboração da cultura pessoal e profissional. Hoje, se acendeu uma centelha de esperança, ao escutar o anúncio de um decreto ministerial. E, mais uma vez, me disponibilizei para  dar a conhecer ao ministério lugares onde os objetivos do decreto já foram atingidos.
O segundo obstáculo à Mudança é numa sociedade doente, normoticamente “achando” que a escola “deve ser como sempre foi”. O terceiro, a formação viciada em práticas de sala de aula. Lideranças tóxicas que, da administração à direção das escolas, engendram normativos de cariz técnico-instrumental, se constituem no quinto obstáculo. As nefastas intervenções dos áulicos são o sexto obstáculo. O sétimo é aquele que eu considero mais doloroso de aceitar – o maior aliado de um professor é outro professor, e o maior inimigo do professor que ousa fazer algo diferente é... outro professor.

Postagens mais visitadas deste blog

Marina da Glória, 24 de novembro de 2043

Voltava do Rio com uma estranha sensação de “dejá vú” e, num cantinho da Internet, me aguardava um textinho do amigo Matias com o título “ O supermercado, a escola e a guerra civil”. “Para evitar o desespero e criar novos entusiasmos, para libertar as iniciativas e suscitar a criatividade, acreditamos que é hoje mais razoável decidir mudar de viatura do que esgotarmo-nos a consertar um motor definitivamente desconsertado.  A escola transformou-se num supermercado onde os adultos distribuem conhecimentos que apenas servem para ter sucesso na escola.” Esta é a tese de Philippe Meirieu e de George Marc, desenvolvida na obra “L’école ou la guerre civile”. Segundo os autores, as escolas são hoje máquinas, que tanto integram como excluem, e os professores que escolhem a profissão não têm condições para responder positivamente à imensidão de pedidos e mandatos sociais, trabalhando no mesmo modelo (no mesmo molde) escolar. Para evitar o stress e a depressão profissionais, a fuga da escola ...