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Candal, 12 de setembro de 202

Nos primeiros mil dias das nossas vidas, realizamos as aprendizagens fundamentais para a restante humana existência. A presença próxima (e até mesmo virtual) de parentes significativos, acaso os progenitores falecessem, melhoraria as taxas de sobrevivência de uma criança e a sua saúde física e mental. E vários estudos dos idos de vinte concluíam que uma criança tinha mais probabilidade de crescer feliz, se acompanhada pelos avós. 

Por que se separava avô e neto de tenra idade? No cuidar dos netos, os avós transmitiam ensinamentos, desde aprender a caminhar até ao contar estórias – a comunicação emocional intergeracional se constituía em pilar básico de aprendizagem dos netos.

Uma desumana organização social do trabalho afastava os pais do convívio com os filhos. Crianças de tenra idade eram “encaixotadas” em creches, os avós sofriam entre as quatro paredes de um asilo. Ciente das nefastas consequências de tais práticas, avós conscientes abdicaram de um emprego a horas certas e investiram todo o seu tempo em jornadas de humanização, na prática da ética do cuidar.

“Cuida-se do que se trabalha e trabalha-se o que se cuida”, como diria o Erich Fromm. E esse “cuidar” dos outros, ajudando-os a refazerem-se, pressupunha uma responsabilidade voluntária na defesa do respeito por valores e princípios, em “fluxos de cuidado”, agindo em submundos onde “algumas vidas valem menos que outras vidas”. 

Quando jovem professor, elaborei um roteiro de estudo, para reelaboração da minha cultura profissional, algo como um “decálogo”: Por que se aprende? O que se deve aprender? Quem aprende? Quem me ajuda a aprender? Quando aprendo? Com quem aprendo? De que preciso para aprender? Onde aprendo? Como aprendo? Como saber que aprendi?

Quando andava pelas escolas, incentivando nos professores a prática de uma comunicação dialógica, começava por perguntar aos seus alunos: O que queres saber? E me desgostava ouvi-los responder com outra pergunta: Eu posso dizer o quero saber? E o que eu quero aprender? 

Eram crianças de tenra idade, mas já com meia dúzia de anos de escutar respostas a perguntas que jamais fizeram. Nas aulas, tinham desaprendido de perguntar.

Na minha vida de professor, nunca parei de perguntar: O que queres fazer? O que queres ser? E não acrescentava “quando fores grande” – se o fizesse, deixaria de ser uma pergunta, para ser um xingamento. Criança não vai ser… Criança é!

Perguntando, participei na reinvenção do saber cuidar, para fazer face às adversidades de caóticos cenários sociais, nos encontros com modos de viver no cotidiano da comunidade-favela, frente a inúmeras violações de fundamentais direitos humanos” – há que se cuidar do broto, para que a vida nos dê flor”, amorosamente, interpelar um mundo contaminado por uma ética individualista, que nos impede de cuidar dos futuros cuidadores.

Ainda hoje formulo perguntas, que considero pertinentes: Quando se aprende? Em 200 letivos, ou nos 365 dias de cada ano? Em quatro ou cinco horas de aula, ou nas vinte e quatro horas de cada dia? Em uma dúzia de anos, ou durante toda a vida?

Em Portugal, começou mais um “ano letivo” – na comunicação social se anuncia o “regresso às aulas”. Em 2026, acabaremos com essa segmentação sem fundamento científico, ou de bom senso - crianças, jovens e adultos aprenderão nas 24 horas de cada dia, nos 365 dias e seis horas de cada ano.

Velhas perguntas sem respostas acorrem à memória:

O que é um ano letivo?

Talvez alguém acreditasse que a inteligência de um aluno para de funcionar em junho e volta a funcionar em... setembro.

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Cabuçu, 23 de julho de 2044

Longe vai o tempo em que fui aprender como avaliar por portfólio. Decorria a década de noventa e eu lá ia, em longa jornada e a expensas próprias, até ao lugar onde o amigo Domingos Fernandes – que viria a ser Presidente do Conselho Nacional de Educação, em vinte e dois – partilhava a sua tese de doutoramento.  Nos fins de semana, ia até Lisboa, trabalhar com o Paulo Abrantes, que se apaixonara pela “aprendizagem por competências”, e ao Instituto de Inovação Educacional. Por trinta anos, utilizei um livrinho concebido no I.I.E., de onde constava a imagem que encima esta cartinha. Chegados aos anos vinte deste século, o portfólio já era digital, mas a avaliação permanecia tão anacrónica como décadas atrás, o que me fez recordar um textinho por mim publicado em finais dos anos noventa e que rezava assim:  “Na binária e pacata rotina aula-teste instalara-se perturbação. Os pais dos alunos perguntavam se os exames da quarta classe tinham regressado. E já toda a gente procurava no ...