Se elencamos dificuldades, falemos de possibilidades, começando pelo “caminho das pedras”, que salvou da extinção a Escola da Ponte.
Em 1976, eu me perguntava:
“O que fazer perante um Sistema hierárquico e autoritário, um Sistema hegemónico e obsoleto, um Sistema moral e economicamente corrupto?
Com a comunidade, creio ter encontrado um dos possíveis caminhos. Porém, quando, em 2004, me afastei (apenas fisicamente) da Ponte, recebi dos novos coordenadores muitos pedidos de ajuda. Tentei ajudá-los.
Era notório um “baixar de braços” perante atitudes prepotentes provindas do Ministério e insidiosas manobras de políticos corruptos e “professores” de outras escolas, que tentavam, a todo o custo “expulsar” a Ponte de Vila das Aves.
Também recebia mensagens enviadas por visitantes:
“Estive na Ponte como professor voluntário e verifiquei, comparando, que o tipo de trabalho que se realizava na altura era, em minha opinião, melhor do que o atual. Por exemplo, existe diferença ao nível do trabalho dos alunos e ao nível das atitudes que eles assumem. O ambiente de trabalho nos espaços não é tão sereno como era no primeiro ano em que estive na escola. Os alunos eram mais autônomos em relação aos professores.”
Reuni depoimentos que me foram, cada vez, mais preocupado com o futuro do Fazer a Ponte.
“As questões da autonomia e do relacionamento com os outros demoram tempo a serem mudados, compreendidos, interiorizados. Em alguns casos, o simples fato de os alunos melhorarem a sua relação com a escola e aprenderem a ler e a escrever com alguma correção (alunos com 13/14/15 anos, que nos chegam depois de jogados fora de outras escolas) já é uma grande vitória.
Em alguns casos, chega mesmo a ser uma vitória o fato de esses alunos continuarem na escola. Vocês disseram: "Mas os alunos só aprendem autonomia, se os professores forem autônomos". E, completando a reflexão: "os alunos só se motivam com professores motivados…
Sabemos da importância de gestores, ou coordenadores. O que me instiga à pesquisa, e talvez você me ofereça respostas, é de como ajudar que a autonomia passe a fazer parte dessas pessoas, como profissionais, a fazer parte do seu perfil.
Não sei se consigo passar para o papel o sentimento que tem me incomodado, há tempos. Por que a equipe de professores perde a motivação e autonomia diante da mudança do líder? Por que professores retomam a inércia e a dúvida de quem espera sempre um motivador? E por que se desestimulam novamente? Como tornar a equipe, motivada e autônoma, novos agentes de motivação para outros professores?”
Estes questionamentos soavam como sinais de alerta. Mas, eu me impedia de intervir. Prezava demasiado a autonomia da minha escola e fui adiando a manifestação de disponibilidade para ajudar a resolver problemas que iam sendo colocados à minha escola – digo “minha”, porque a sentia como uma “filha emancipada”.
Os educadores da Ponte respondiam às interpelações:
“A "crise" que a Ponte está atravessando também se deve (em parte) à mudança de líder. A crise de liderança reforçou o conflito instalado. As regressões a que assisti em projetos que acompanhei de perto resultaram, quase sempre da mudança de líder. Sempre que isso aconteceu, muitos professores refugiaram-se em posições mais seguras, mais acomodadas. Mas acredito que os momentos de crise são ótimos para despertar o lado criativo de todos nós.”
Os olhares externos me inquietaram. E, no quinquagésimo ano do projeto, renovo o meu “contrato” com a Escola da Ponte, desenvolvendo formação à distância e presencial.
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