Pular para o conteúdo principal

Conímbriga, 26 de setembro de 2025

Se elencamos dificuldades, falemos de possibilidades, começando pelo “caminho das pedras”, que salvou da extinção a Escola da Ponte. 

Em 1976, eu me perguntava:

“O que fazer perante um Sistema hierárquico e autoritário, um Sistema hegemónico e obsoleto, um Sistema moral e economicamente corrupto?

Com a comunidade, creio ter encontrado um dos possíveis caminhos. Porém, quando, em 2004, me afastei (apenas fisicamente) da Ponte, recebi dos novos coordenadores muitos pedidos de ajuda. Tentei ajudá-los. 

Era notório um “baixar de braços” perante atitudes prepotentes provindas do Ministério e insidiosas manobras de políticos corruptos e “professores” de outras escolas, que tentavam, a todo o custo “expulsar” a Ponte de Vila das Aves. 

Também recebia mensagens enviadas por visitantes:

“Estive na Ponte como professor voluntário e verifiquei, comparando, que o tipo de trabalho que se realizava na altura era, em minha opinião, melhor do que o atual. Por exemplo, existe diferença ao nível do trabalho dos alunos e ao nível das atitudes que eles assumem. O ambiente de trabalho nos espaços não é tão sereno como era no primeiro ano em que estive na escola. Os alunos eram mais autônomos em relação aos professores.”

Reuni depoimentos que me foram, cada vez, mais preocupado com o futuro do Fazer a Ponte.

“As questões da autonomia e do relacionamento com os outros demoram tempo a serem mudados, compreendidos, interiorizados. Em alguns casos, o simples fato de os alunos melhorarem a sua relação com a escola e aprenderem a ler e a escrever com alguma correção (alunos com 13/14/15 anos, que nos chegam depois de jogados fora de outras escolas) já é uma grande vitória. 

Em alguns casos, chega mesmo a ser uma vitória o fato de esses alunos continuarem na escola. Vocês disseram: "Mas os alunos só aprendem autonomia, se os professores forem autônomos". E, completando a reflexão: "os alunos só se motivam com professores motivados…

Sabemos da importância de gestores, ou coordenadores. O que me instiga à pesquisa, e talvez você me ofereça respostas, é de como ajudar que a autonomia passe a fazer parte dessas pessoas, como profissionais, a fazer parte do seu perfil. 

Não sei se consigo passar para o papel o sentimento que tem me incomodado, há tempos. Por que a equipe de professores perde a motivação e autonomia diante da mudança do líder? Por que professores retomam a inércia e a dúvida de quem espera sempre um motivador? E por que se desestimulam novamente? Como tornar a equipe, motivada e autônoma, novos agentes de motivação para outros professores?”

Estes questionamentos soavam como sinais de alerta. Mas, eu me impedia de intervir. Prezava demasiado a autonomia da minha escola e fui adiando a manifestação de disponibilidade para ajudar a resolver problemas que iam sendo colocados à minha escola – digo “minha”, porque a sentia como uma “filha emancipada”.

Os educadores da Ponte respondiam às interpelações:

“A "crise" que a Ponte está atravessando também se deve (em parte) à mudança de líder. A crise de liderança reforçou o conflito instalado. As regressões a que assisti em projetos que acompanhei de perto resultaram, quase sempre da mudança de líder. Sempre que isso aconteceu, muitos professores refugiaram-se em posições mais seguras, mais acomodadas. Mas acredito que os momentos de crise são ótimos para despertar o lado criativo de todos nós.”

Os olhares externos me inquietaram. E, no quinquagésimo ano do projeto, renovo o meu “contrato” com a Escola da Ponte, desenvolvendo formação à distância e presencial.

Postagens mais visitadas deste blog

Marina da Glória, 24 de novembro de 2043

Voltava do Rio com uma estranha sensação de “dejá vú” e, num cantinho da Internet, me aguardava um textinho do amigo Matias com o título “ O supermercado, a escola e a guerra civil”. “Para evitar o desespero e criar novos entusiasmos, para libertar as iniciativas e suscitar a criatividade, acreditamos que é hoje mais razoável decidir mudar de viatura do que esgotarmo-nos a consertar um motor definitivamente desconsertado.  A escola transformou-se num supermercado onde os adultos distribuem conhecimentos que apenas servem para ter sucesso na escola.” Esta é a tese de Philippe Meirieu e de George Marc, desenvolvida na obra “L’école ou la guerre civile”. Segundo os autores, as escolas são hoje máquinas, que tanto integram como excluem, e os professores que escolhem a profissão não têm condições para responder positivamente à imensidão de pedidos e mandatos sociais, trabalhando no mesmo modelo (no mesmo molde) escolar. Para evitar o stress e a depressão profissionais, a fuga da escola ...