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Macedo de Cavaleiros, 23 de setembro de 2025

“Para os Caminhantes, tudo é caminho"

Este é o título do novo livro de Tolentino de Mendonça. Este título, escrito pela positiva não deixa de lembrar o seu contrário: "Para quem não quer caminhar, tudo são muros".

E um parágrafo da apresentação do livro para "abrir o apetite":

“Chegará o momento em que compreenderemos que sabedoria é amar tudo. É saudar os dias sem esquecer a importância das horas; contemplar as grandes correntes sem deixar de agradecer cada gota de orvalho, estimar o pão sem, no entanto, esquecer o sabor das migalhas”

“Sabedoria é amar tudo”, mas uma profunda crise moral e ética se instalara na profissão de professor impedindo que ao amar se juntasse a coragem de agir. O Sistema os funcionarizara e condicionava os seus comportamentos e atitudes. Afetados de normose, sobreviviam numa obediência formal e na falsa autonomia da solidão da sala de aula.

Eram já muitos os professores conscientes da necessidade e urgência da reconfiguração das práticas educacionais, mas sabíamos que todo hábito, uma vez adquirido, controlava o subconsciente.

Muito grave era o fato de os professores permitirem que o autoritarismo imperasse e que critérios de natureza pedagógica fossem desprezados – permaneciam apáticos. 

A pretexto de uma ilusória “recuperação de atrasos”, de “recuperação de aprendizagens”, “aulas sem intervalo” eram doses duplas de tédio. Os alunos continuavam à espera do “segundo toque”, para entrar na sala de aula. Alguns professores esperavam o “Dia de São Nunca” em que (finalmente) iriam “mudar de método”. E aqueles que se queixavam de uma crónica “falta de tempo”, diariamente, colocavam uma cruz no calendário pendurado na sala dos professores, ansiando pelo tempo da aposentação. 

O condicionamento operante do toque de uma sirene, o adestramento escolar (civil ou militar) não lograva criar o hábito da pontualidade. A normose se instalara nos corpos e nos espíritos – a procrastinação era um comportamento considerado normal.

A praga da normose se espalhata como câncer embotador de sentidos. O sem-sentido do sistema de ensinagem era naturalizado. E eram infrutíferas quase todas as tentativas feitas para desocultar tristes realidades, evitar a deterioração da Escola Pública e impedir a sua mercantilização. 

Se eu perguntava a um dador de aula se continuaria a “dar aula” sabendo que nem todos os seus alunos aprenderiam”, a resposta era um impropério ou ameaça. A normose se instalara e esse dador de aula continuava tão antiético, quanto antes o era. 

Normose era a tendência patológica para condicionar o próprio comportamento, para seguir normas de conduta socialmente estabelecidas, em prejuízo da autoexpressão pessoal, sobrevalorizando-se a opinião e a aceitação social dos outros.

A reprodução do modelo dessa escola, universalmente conhecida, era tão aceite pela sociedade que, raramente, despertava possibilidade de pensá-la diferente. Estruturado há mais de duzentos anos, o modelo se reproduzia de forma tão natural, que parecia perpetuar-se. A fragmentação materializara-se no currículo . organizado em disciplinas, o conhecimento foi recortado, tornando quase impossível a compreensão das relações entre as partes. E era “ensinado” ao longo de um ano letivo, por etapas – bimestre, trimestre, semestre, sem que se percebesse quaisquer indícios de fundamentação científica para tal prática. 

A normose instalara-se, porque todo hábito, uma vez adquirido, se afundava no subconsciente, transmitido pela educação familiar, social e escolar.

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