Pular para o conteúdo principal

Penalva do Castelo, 19 de setembro de 2025

Uma mensagem que já vos dei a conhecer continuava assim:

“Ontem, apareceram aqui de surpresa por causa de uma denúncia. Fui pressionada para me calar e entrar no sistema. O Diretor disse que projetos como o da Escola da Ponte não valem nada. 

Estávamos em diálogo com a secretária dele, esperando, há semanas, sem uma resposta. E nada! Já não sei o que fazer, estou sem dormir, doente, passando mal com toda essa situação. Eles não têm interesse na melhoria da qualidade da educação e estão burocratizando o processo. 

Estou sendo muito desrespeitada. Mas o importante é que já tenho planos para o próximo ano. Não vou desistir tão fácil! E como professora não estarei refém de nenhum diretor moralmente fraco. 

Tive uma conversa com ele. Foi categórico. Disse-me que esta escola tinha que ser como as outras, que uma escola tem que ensinar só português e matemática e pronto! Que o que os pais querem é que os filhos sejam doutores. 

Um discurso arrogante e banal. Foi em vão a minha conversa! Ele é covarde, não tem opinião, deixa-se levar pela maré.”

Eram frequentes as mensagens que traduziam sentimentos como a frustração, o desânimo, a indignação. A todas eu respondia incitando a voltar a “pôr as mãos à obra”, a retomar uma práxis reconstrutora, pois acreditava (e acredito) nos professores e parto daquilo que eles são, para que se sintam seguros no processo de mudança. 

Aproveito a formação experiencial dos educadores esperançosos. Concedo-lhes todo o tempo necessário e condições de autotransformação. Pois, como diria Sartre, não somos responsáveis por aquilo que fizeram de nós, mas seremos responsáveis por aquilo que fizermos com aquilo que fizeram de nós.

Contudo, a essa convicção deveria juntar a análise dos obstáculos que se colocam a quem se propõe operar mudanças – e inventariar possibilidade da sua ultrapassagem.

Sempre que me perguntavam qual era o primeiro dos obstáculos, eu respondia:

“O primeiro obstáculo sou eu, e confesso que não foi fácil ultrapassá-lo. O principal obstáculo é o educador que não toma a decisão ética de mudar. Embora saiba que do modo como ensina não assegura a todos o direito à educação, continua semeando ignorância. Todas as intenções de mudança deparam com hesitações, que resultam de “traumáticas experiências” vividas no seio de um sistema moralmente corrupto.

Jung dissera:

“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.”

E acrescentara a esta citação que o encontro de duas personalidades se assemelhava ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorresse, ambos sofreriam transformação. E eu não deixava de pensar no tempo em que ainda “dava aula”. 

Pelos idos de setenta, eu recusei fazer planejamentos semanais, e fazia o meu plano de aula na véspera. Porém, quando, no dia seguinte, eu dava a aula planejada no dia anterior, sentia que não era eu quem ali estava. Na sala de aula, o eu-ator representava um papel escrito no dia anterior. Eu era um clown, que não geria a imprevisibilidade. Eu não era autêntico. Eu não estava ali, numa relação de inteireza e profundidade. Algo ou alguém estava ausente.

Compreendi que aprendíamos na intersubjetividade, na relação com o mundo, no estabelecimento de vínculos cognitivos, mas também emocionais e afetivos. Aprendíamos no re-ligare da família com a sociedade e a escola. Foi nesse contexto que o “Fazer a Ponte” foi concebido. Foi desse modo que o primeiro obstáculo foi ultrapassado – com a ajuda das famílias dos meus alunos, com o apoio de uma comunidade.

Postagens mais visitadas deste blog

Marina da Glória, 24 de novembro de 2043

Voltava do Rio com uma estranha sensação de “dejá vú” e, num cantinho da Internet, me aguardava um textinho do amigo Matias com o título “ O supermercado, a escola e a guerra civil”. “Para evitar o desespero e criar novos entusiasmos, para libertar as iniciativas e suscitar a criatividade, acreditamos que é hoje mais razoável decidir mudar de viatura do que esgotarmo-nos a consertar um motor definitivamente desconsertado.  A escola transformou-se num supermercado onde os adultos distribuem conhecimentos que apenas servem para ter sucesso na escola.” Esta é a tese de Philippe Meirieu e de George Marc, desenvolvida na obra “L’école ou la guerre civile”. Segundo os autores, as escolas são hoje máquinas, que tanto integram como excluem, e os professores que escolhem a profissão não têm condições para responder positivamente à imensidão de pedidos e mandatos sociais, trabalhando no mesmo modelo (no mesmo molde) escolar. Para evitar o stress e a depressão profissionais, a fuga da escola ...