Pular para o conteúdo principal

Samora Correia, 21 de setembro de 2025

Numa madrugada de andarilhagem pelos cafundós da educação brasileira, passando pelo Agreste, aquilo que mais me chamou a atenção foi o cortejo de crianças, mochilas nas costas, esperando o transporte escolar.

Conversei com algumas crianças e com a mãe de uma delas. A filha havia sido acordada cerca das cinco horas. Todos os dias era retirada do leito de madrugada. Cerca de uma hora, caminhava por estradas de pó e espinhos, até ao ponto onde o ônibus a esperaria, quando fossem sete horas. 

No ônibus, as crianças dormitavam. O cansaço marcava o semblante de todas. Segui o trajeto do ônibus escolar. Aos trancos e barrancos, após meia hora de padecimento, num trajeto de buracos e alguns pedaços de estrada, eis-nos chegados a um prédio, que denotava abandono e a que chamavam… escola.  

Na Brasília daquele tempo, crianças moradoras em São Sebastião, por não haver “vaga” – o conceito de vaga era um absurdo, um dos sutis modos de negar o direito à educação – eram obrigadas a enfrentar transporte para outros locais do Distrito Federal, Crianças de tenra idade eram transportadas em ônibus alugados pela secretaria de educação. Os alunos mais velhos enfrentavam o transporte público, alguns precisando de várias passagens, para chegar à… “escola”. 

Mensalmente, se desperdiçava um milhão e seiscentos mil reais! Certamente, os funcionários responsáveis pelo transporte escolar ainda não haviam tido tempo de ler o documento orientador da política educacional da sua da secretaria. Nele, Anísio sugeria uma gestão de espaços educacionais alternativos ao da “escola da vaga”. Dizia que a escola deveria ser o bairro, a comunidade… onde não era preciso transporte escolar.

No dia seguinte, participei numa mesa de debate sobre evasão escolar. O momento alto do debate foi provocado por uma oportuna intervenção vinda da plateia, referência a uma notícia, que dava conta da deleção de um empresário de ônibus, que atingia esferas de poder: Falta de ônibus impedia alunos de estudar em Rondônia. Algumas crianças já tinham perdido dois anos letivos.

Máfias da merenda escolar e outros campos de suspeita eram, talvez, a ponta visível de um iceberg. A corrupção económica delapidava o erário público, mercantilizava a Escola. Secretarias celebravam contratos faraónicos com empresas, consultorias, formações, “estudos”, sem que qualquer impacto social-escolar daí resultasse.

Naquele tempo, havia muita gente que pensava que escola era um prédio e que, dentro do prédio, era suposto que as crianças aprendessem algo, que justificasse acordar de madrugada e percorrer a via-sacra de estradas do interior. Não radicaria aí uma das causas da evasão? Aproveitei para lançar o debate:

“Por que é preciso transporte escolar? 

O que aprendem os jovens dentro de um edifício chamado escola, que não possam aprender fora dele?”

Uma “especialista” do departamento de transporte escolar da secretaria interrompeu a leitura do seu power point, para me invetivar: 

“O senhor doutor é um europeu, não consegue entender. Não vê que, aqui, é preciso levar as crianças para a escola?”

Retorqui: 

“Mas, não foi um pernambucano que escreveu que aprendemos uns com os outros mediatizados pelo mundo? Não consta que o vosso conterrâneo tenha escrito “mediatizados por um prédio”. Escolas são pessoas, não são prédios, minha senhora”.”

Um esgar de desagrado e de desdém atravessou a face da “especialista”. Ignorou a minha interpelação. Passou, também, a ignorar a minha presença. E essa secretaria de educação nunca mais me convidou para “palestrar”.

Postagens mais visitadas deste blog

Jardim Atlântico Leste 19 de julho de 2045

Na Maricá, perto do lugar onde Darcy viveu os seus últimos dias, o dia 19 de julho de há vinte anos marcou o reinício do projeto “Praticar Darcy”, integrando o que, erradamente, o “Sistema que sustentava a crise” separava: a Família, a Sociedade e a Escola. Não iludíamos os obstáculos, mostrávamos possibilidades – tratava-se tão só de um apelo a decência, de uma contribuição para a regeneração do “sistema que sustentava a crise”, uma simples prática de humanização do ato de aprender e de ensinar. O convite à participação nesse ato cívico rezava assim: “Convidamos os educadores de Maricá para “Praticar Darcy”, fazendo “uma Ponte” em Maricá. No dia 19 de julho, entre as 14 e as 17 horas, na Barra de Maricá, será realizada uma “residência pedagógica” com crianças, jovens e adultos participantes da Colónia de Férias da Associação Art7. Trata-se de uma efetiva INOVAÇÃO, que partilhamos com os educadores de Maricá.” A “crise” que Darcy disse ser um “projeto” prolongava-se, indefinidamente. O...