Pular para o conteúdo principal

Santiago do Cacém, 24 de setembro de 2025

O sexto obstáculo á Mudança e à Inovação é a formação de professores. Esse obstáculo assenta no predomínio de uma cultura pessoal e profissional dos professores que convida à acomodação. E essa cultura é reforçada pela formação que ainda se vai fazendo. 

O modo como os professores aprendem é o mesmo com que ensinam, pelo que toda a formação deveria fundar-se no princípio do isomorfismo. Porém, o que acontece é a prática de uma sistemática deformação operada nas salas de aula dos cursos de pedagogia e até mesmo nas faculdades de ciências da educação.

Recentemente, mais uma “moda pedagógica” surgiu como mais um paliativo de um velho de obsoleto sistema de ensino: a formação para “dar aula” de desenvolvimento socioemocional dos alunos – como se numa aula semanal se pudesse cuidar do socioemocional dos alunos! Mas, ninguém fala de cuidar do socioemocional dos professores. 

Há cerca de cem anos, a poeta e pedagoga Cecília Meireles isto escreveu:

“Que lhes valeu todo o curso que fizeram durante longos anos? Em vão leram livros copiosos, beberam a caudalosa erudição dos catedráticos imponentes, como oradores parlamentares, fizeram provas escritas de inúmeras laudas, com letra miúda. Palavras, palavras, palavras que o vento levou... As aulas de psicologia ficaram geladas nos livros; as de pedagogia fecharam-se nas caixas de jogos; as outras não levaram em si nenhum gérmen dessas duas, que são, no entanto as indispensáveis a quem vai ser professor. Pobres alunas que não tiveram quem as orientasse a tempo! Depois de tanto trabalho, terão de fazer por si mesmas, e com enorme esforço, aguilhoadas pela pressa de quem já está no quadro do magistério, toda a cultura técnica que ninguém pensou ou lhes pode fornecer no momento devido” 

Nos últimos 50 anos, ressalvadas as raras exceções, a formação inicial dos professores aconteceu em cursos de pedagogia bolorenta. A formação continuada era assegurada em “centros de formação” e por escolas (ditas) de “aperfeiçoamento dos profissionais da educação”. 

Na universidade como nos “centros de formação”, o curso foi modalidade hegemônica. exercícios de instrucionismo fóssil ministrados por “deformadores” encartados, que reproduziram o modelo educacional do século XIX, acrescentando-lhe ensinos híbridos e outros paliativos. 

Alguns formadores tomaram consciência da situação e assumiram um compromisso ético com a formação. Isomorficamente, o formando deixou de ser considerado objeto de capacitação, para ser sujeito de aprendizagem. A teoria já não antecedia a prática. Era a dificuldade de ensinagem que impelia o educador para a pesquisa, para a busca da teoria que, juntando à sua competência prática (a de dar aula, para acabar com a sala de aula), produzia práxis inovadoras. 

Concebemos um processo formativo para aprendermos a cuidar dos professores éticos, para que possam reelaborar a sua cultura pessoal e profissional, partindo daquilo que são para serem aquilo que precisam ser. Como diria o Iturra: 

“Na vertigem das reformas educativas dos últimos cem anos. A cultura letrada que organiza o ensino não tem sido capaz de incorporar a prática social como mediadora entre o saber da experiência controlada e o saber que provém da experiência provada”.

E foi Agostinho da Silva quem disse que a escola é um lugar para onde o menino é levado e onde o entregam a um especializado em dar aula, que não sabe fazer mais nada. Eu acrescento que quem sabe fazer uma nova educação a faz; quem não a sabe fazer ensina; e quem não sabe ensinar faz formação de professores.

Postagens mais visitadas deste blog

Leiria, 3 de outubro de 2043

Tendo sido a Ponte a primeira escola a conseguir transitar de práticas do paradigma da instrução para o paradigma da aprendizagem, vi-me na necessidade de “explicar o modo” de “transitar”. E acompanhei processos de Transformação Vivencial, na transição do Núcleo de Iniciação para o de Consolidação. No contexto de uma prática formativa isomórfica, agi com os professores do mesmo modo que eles iriam agir com os seus alunos. No início dos anos noventa, eu havia elaborado um “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Consolidação”. Embora ele tivesse sofrido correções e atualizações, parti desse “Perfil” para o adequar a uma Nova Construção Social, nos idos de vinte e três.  Aqui vos deixo parte de um documento, que com extraordinários educadores analisei, um quarto de século após a sua redação. Perdoai a ingenuidade do texto e alguns equívocos nele contidos. Não vos esqueçais de que foi elaborado há mais de cinquenta anos. “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Con...