O sexto obstáculo á Mudança e à Inovação é a formação de professores. Esse obstáculo assenta no predomínio de uma cultura pessoal e profissional dos professores que convida à acomodação. E essa cultura é reforçada pela formação que ainda se vai fazendo.
O modo como os professores aprendem é o mesmo com que ensinam, pelo que toda a formação deveria fundar-se no princípio do isomorfismo. Porém, o que acontece é a prática de uma sistemática deformação operada nas salas de aula dos cursos de pedagogia e até mesmo nas faculdades de ciências da educação.
Recentemente, mais uma “moda pedagógica” surgiu como mais um paliativo de um velho de obsoleto sistema de ensino: a formação para “dar aula” de desenvolvimento socioemocional dos alunos – como se numa aula semanal se pudesse cuidar do socioemocional dos alunos! Mas, ninguém fala de cuidar do socioemocional dos professores.
Há cerca de cem anos, a poeta e pedagoga Cecília Meireles isto escreveu:
“Que lhes valeu todo o curso que fizeram durante longos anos? Em vão leram livros copiosos, beberam a caudalosa erudição dos catedráticos imponentes, como oradores parlamentares, fizeram provas escritas de inúmeras laudas, com letra miúda. Palavras, palavras, palavras que o vento levou... As aulas de psicologia ficaram geladas nos livros; as de pedagogia fecharam-se nas caixas de jogos; as outras não levaram em si nenhum gérmen dessas duas, que são, no entanto as indispensáveis a quem vai ser professor. Pobres alunas que não tiveram quem as orientasse a tempo! Depois de tanto trabalho, terão de fazer por si mesmas, e com enorme esforço, aguilhoadas pela pressa de quem já está no quadro do magistério, toda a cultura técnica que ninguém pensou ou lhes pode fornecer no momento devido”
Nos últimos 50 anos, ressalvadas as raras exceções, a formação inicial dos professores aconteceu em cursos de pedagogia bolorenta. A formação continuada era assegurada em “centros de formação” e por escolas (ditas) de “aperfeiçoamento dos profissionais da educação”.
Na universidade como nos “centros de formação”, o curso foi modalidade hegemônica. exercícios de instrucionismo fóssil ministrados por “deformadores” encartados, que reproduziram o modelo educacional do século XIX, acrescentando-lhe ensinos híbridos e outros paliativos.
Alguns formadores tomaram consciência da situação e assumiram um compromisso ético com a formação. Isomorficamente, o formando deixou de ser considerado objeto de capacitação, para ser sujeito de aprendizagem. A teoria já não antecedia a prática. Era a dificuldade de ensinagem que impelia o educador para a pesquisa, para a busca da teoria que, juntando à sua competência prática (a de dar aula, para acabar com a sala de aula), produzia práxis inovadoras.
Concebemos um processo formativo para aprendermos a cuidar dos professores éticos, para que possam reelaborar a sua cultura pessoal e profissional, partindo daquilo que são para serem aquilo que precisam ser. Como diria o Iturra:
“Na vertigem das reformas educativas dos últimos cem anos. A cultura letrada que organiza o ensino não tem sido capaz de incorporar a prática social como mediadora entre o saber da experiência controlada e o saber que provém da experiência provada”.
E foi Agostinho da Silva quem disse que a escola é um lugar para onde o menino é levado e onde o entregam a um especializado em dar aula, que não sabe fazer mais nada. Eu acrescento que quem sabe fazer uma nova educação a faz; quem não a sabe fazer ensina; e quem não sabe ensinar faz formação de professores.
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