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Vila Nova de Gaia, 14 de setembro de 2025

O amigo Rubem dizia que os educadores deveriam ser esperançosos. Sabia que a esperança (de “esperançar”) nunca deverá ser adiada, pelo que envio palavras de Agostinho àqueles que recusam escutar:

“É necessário que se resista, enquanto houver um fôlego de vida, mas que essa resistência seja sobretudo o contato com a realidade da força criadora; é esta que, afinal tudo, leva de vencida e reduz oposições a pó inútil e ligeiro.”

É chegado o tempo de partilhar uma amálgama de vivências, caóticos retalhos, para o eventual leitor religar. Não mais do que isso, nada além de um fraterno convite para um exercício dialético, começando pela ação, para suscitar reflexão. 

Aqui trarei retalhos de vida em lugares onde uma nova educação começa a tomar forma no chão das escolas. 

Atrever-me-ei a sugerir propostas concretas de mudança. Por agora, apenas referências de atos primordiais, destinados àqueles que ousarem começar a criar alternativas à velha escola – isso mesmo: sinto que estamos a chegar ao fim de um tempo. E com ele, o fim de uma certa maneira de entender e de fazer escola. 

É minha intenção não doutrinar nem criar mais uma teorização de teorias teorizadas, que, por aí abundam. Não quero convencer quem quer que seja, mas propor reflexão sobre a ação. Sou insistente: apenas peço que ajam e que reflitam. 

Na Ponte de há meio século, compreendemos que precisaríamos mais de interrogações do que de certezas. Mas, ao que parece, ainda há quem padeça de uma estranha normose. Eis o que aconteceu, no decurso de um seminário:

Deparei com um grupo de professores cheios de certezas.

Perguntaram-me por que razão, estando eu aposentado, vivo envolvido em múltiplos projetos. Respondi que somos seres incompletos, cativos da freiriana incompletude. Quiseram saber qual o projeto em que, atualmente, eu estava envolvido. Disse-lhes que estava empenhado em ajudar a criar uma rede de comunidades de aprendizagem. Insistiram: 

“E, quando conseguir concretizar esse projeto, para definitivamente?” 

Disse-lhes que jamais pararia.

“E o que vai fazer?”

“Espero entrar em mais algum projeto.”

“Qual? – perguntaram.

“Talvez um projeto que vise ir além, pois deverá haver algo melhor do que comunidades de aprendizagem.” 

Creio que não terão entendido. Muito menos teriam noção do que custa operar mudanças. Todo o mundo é composto de mudança, como escreveu o Luís, mas inúmeros obstáculos se colocam aos obreiros de efetivas mudanças, aos verdadeiros inovadores.

De um desses corajosos seres humanos, que se transcendem e transformam, recebi esta mensagem:

“Estou a sofrer boicotes frequentes por parte da Direção. Como podem os educadores realmente comprometidos com a justiça social avançar com os seus projetos numa instituição gerida por alguém que não apoia e até inviabiliza o processo de transformação concebido, ignora os chamamentos éticos e legais dos educadores e educandos?

Professor Zé, a escola cheira mal, está purulenta. Recebi ameaças, corro risco de processo disciplinar. Numa reunião, fui muito desrespeitado. Algumas professoras das mais antigas e a diretora estão a inventar boatos e contestar o projeto, sem fundamentação. 

Fiquei preocupado, porque tenho uma filha de 6 meses e um filho de 2 anos para alimentar... Provavelmente, serei mandado para rua no final do ano. Não sei como vai ser... “

Recebi inúmeras mensagens como esta. Traduziam situações geradas por um dos obstáculos à mudança. Sob a forma de assédio moral, o autoritarismo de lideranças tóxicas liquidou sonhos, destruiu nobres projetos.

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