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Barra de Maricá, 28 de outubro de 2045

No dia 8 de fevereiro de 2025, nos reunimos no Museu Casa Darcy Ribeiro. Nesse encontro de educadores assumimos contribuir para concretizar objetivos constantes do Termo de Referência recebido da secretaria de educação:

“A superação das desigualdades educacionais, com ênfase na promoção da cidadania e na erradicação de todas as formas de discriminação;

A melhoria da qualidade da educação, com ênfase em valores morais e éticos, e na promoção humanística, científica, cultural e tecnológica;

A prática de princípios do respeito aos direitos humanos, à diversidade e sustentabilidade socioambiental;

A valorização dos profissionais da educação, através da criação de contextos de “Escola Cultural” – uma nova construção social de aprendizagem.”

Há quarenta anos, quando era voluntário no Projeto Âncora, escrevi uma “Carta para Darcy Ribeiro”: “No tempo dos CIEP”. Recordo-me de a ter escrito no bar do Beijôdromo (uma inovação arquitetónica do arquiteto João Lima – para Darcy, o Lelé), à conversa com o Chiquinho, livreiro da Universidade de Brasília com quem Darcy muito conversou. Fofoca vai, fofoca vem, atrevi-me a dirigir-me ao Mestre nestes termos:

Mumbuca, 26 de outubro de 2014

Querido Darcy, escutei o teu apelo, já quando o câncer consumia o teu último sopro de vida. Vi-te sofrer o exílio, enquanto o teu país dormia distraído, sem perceber que era subtraído em tenebrosas transações.

O teu espírito ainda deambula pelo Beijôdromo, Anísio ainda mora na Livraria do Chiquinho e Agostinho ainda escreve poemas sob a sombra da mangueira.

Com os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs) visavas oferecer ensino público de qualidade em período integral. Considerava-los "uma revolução na educação pública do País".  No segundo governo de Brizola, alguns CIEPs até foram equipados com piscinas, e forneciam refeições completas, além de atendimento médico e odontológico. Era preciso “tirar crianças carentes das ruas, oferecendo-lhes "pais sociais".

É lamentável que o “projeto” de que falavas continue letra morta e que milhões de jovens sejam excluídos de uma vida digna. O desgoverno, que se lhes seguiu, desvirtuou o projeto. Os CIEPs viraram escolas comuns, com o ensino em turnos e contra-turnos. Alguns, parcialmente concluídos, foram abandonados. Em muitos lugares do Brasil, encontrei CIEPs adaptados a “novos tempos”.

Medidas de retrocesso perenizam o velho paradigma escolar, reprodutor de oprimidos e opressores, que o malogrado secretário de educação Paulo Freire tanto denunciou. Eu sei que custa a crer, caro Darcy, mas é verdade. Se não me engano, foste tu quem fez esta afirmação:

“O Brasil, último país a acabar com a escravidão tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso.”

Não desesperes. Fica sabendo que já muitos educadores e escolas são sensíveis aos teus apelos. Depois de tenebrosos tempos, luminosos tempos hão-de vir.

Em Maricá, o nascer do sol vermelho-alaranjado se abre sobre lagoas que beijam o mar, as biguás voam sobre a calma dos dias que se enfeitam para gerar uma energia social mobilizadora de comunidades. É um lugar abençoado entre a serra e o mar, berço de povos originários.

Em 1832 Charles Darwin aqui aportou com sua equipe, visitou sítios arqueológicos e estudou o complexo ecossistema de restinga. Por aqui também passaram os jesuítas – em 1584, o padre Anchieta realizou “uma pesca milagrosa”. Aqui, pretendemos traçar novos rumos para a Educação de Maricá, do Brasil e do Mundo.

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Caçapava do Sul, 19 de fevereiro de 2045

No interior gaúcho se implantou um dos projetos mais consistentes de quantos ajudei a criar: a Escola da Floresta. Fui ver como o amigo Bruno e a sua equipe testavam teoria construída ao longo de mais de meio século. E a formação experiencial observada na Escola da Floresta me mostrava que se deveria partir de práticas “disruptivas”, como as da Ponte, do Âncora, ou da Escola Aberta, para as instalar, as analisar criticamente e, prudentemente, inovar. Nesse projeto confirmei aquilo que começara a compreender no início deste século. Isto é: se o centro dos processos de aprendizagem não deveria ser o professor, também não seria o aluno – não havia centro, mas relação humana. As práticas instrucionistas eram obsoletas, mas as práticas neoliberais da Escola Nova não poderiam prescindir de contribuições do paradigma da instrução. Deveria haver um modo de integrar essas práticas com aquelas fundadas no paradigma da comunicação. E eis que surgiam... “divergências”. “Tem de cumprir a lei da sec...