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Itaipuaçu, 25 de outubro de 2045

Nos idos de vinte, as escolas careciam de espaços de convivencialidade reflexiva. Os professores careciam de procurar compreender que pessoas eram aquelas com quem partilhavam os dias, quais são as suas necessidades (educativas e outras). Seria preciso cuidar da pessoa do professor, para que ele se visse na dignidade de pessoa humana e visse os outros educadores como pessoas. 

Seria preciso saber fazer silêncio “escutatório”, fundamento do reconhecimento do outro, rever a nossa necessidade de desejar o outro conforme a nossa imagem, respeitá-lo numa perspetiva não-narcísica, ou seja, aquela que respeita o outro, o não-eu, o diferente de mim, aquela que não quer catequizar ninguém, que defende a liberdade de ideias e crenças. Isso também seria um caminho para a inclusão. 

Sempre que um professor se assumisse individualmente responsável pelos atos do seu coletivo... incluía-se. Mas, nas escolas, tardava o reconhecimento da divergência, da dessemelhança, enquanto abundavam exemplos do “faz de conta da inclusão” (escolar e social). 

Nos idos de setenta, nos emancipámos de um modelo educacional genocida, abrindo caminhos, possibilidades de mudança. Em 2025, fomos além da Ponte, concebendo uma Nova Escola para uma Nova Humanidade. E nos assaltava um profundo desgosto e indignação, por vermos que a quase totalidade dos educadores permaneciam imersos num estranho torpor, anestesiados pela palração teoricista, cativos de processos de mercantilização da Escola Pública.

Enviamos aos colegas de profissão e amigos mais próximos um convite. Não nos considerávamos exemplos para quem quer que fosse, mas nos respeitávamos e respeitávamos o direito à Educação dos nossos semelhantes. Um fraterno convite à sedição pedagógica para que ousassem questionar o instituído e assegurar a todos o direito à educação, a uma boa educação.

Nesse tempo, numa rede social, assim falava o José: 

“Retomo uma verdade óbvia (para mim). Só vemos depois de compreendermos”. E citava um tal Fisher, que nunca cheguei a saber quem seria:

“O Rei! disse ofegante: nem vos vi. Que fazeis aqui?

O mesmo que vós, cavaleiro: procuro a porta.

O cavaleiro olhou de novo à sua volta.

Não vejo nenhuma porta.

Só podemos realmente ver depois de compreendermos – disse o rei – Quando compreendermos o que está nesta sala, conseguimos avistar a porta que dá acesso à sala seguinte.”

Disponibilizávamos “salas virtuais” e “residência pedagógica”. Protótipos de comunidade surgiam, possibilitando a acesso a novas práticas. Ninguém poderia pretextar “falta de recursos” – rejeitávamos a tibieza, a condescendência, autocomiseração.

Pelo outubro de há vinte anos, mantive contato epistolar com alguém que eu muito estimava, comentando e formulando perguntas jamais respondidas. Parece que a velhice nos devolve alguma serenidade. Serenamente, pedia que me fossem dadas razões para a manutenção de um sistema obsoleto e iníquo, aquele que tinha por dispositivo central a sala de aula saturada de paliativos assimilados pelo “sistema”, digeridos e servidos como se de inovação se tratasse. 

À distância de duas décadas, já consigo comentar sem quase deixar transparecer a irritação, apenas com resquícios de indignação. Naquele tempo, eu manifestava perplexidade perante o obsceno silêncio dos meus companheiros das ciências da educação. Não conseguia digerir omissões, discurso de acariciamento do ego dos professores, nem processos de naturalização – a educação familiar, a educação social e a escolar eram corresponsáveis pelo caos.

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