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Morada das Águias, 31 de outubro de 2045

Não mais esquecerei a primeira visita à casa de Darcy. A Adriana, a Cláudia, a Andréa e a Natália me levaram até lá, e me deixei possuir por forte emoção. Senti que, nesse o lugar teria início um projeto, que deveria resgatar a memória do insigne Mestre.

O espírito de Darcy se fez presente num breve encontro com excelentes educadores. Ali, Darcy escrevera derradeiras palavras, quando o câncer consumia o seu último sopro de vida, depois de sofrer um longo exílio e enquanto o seu país “dormia distraído”. Darcy regressava ali, onde se esperava recuperar a sua memória.

Em 1977, numa palestra com o título “SOBRE O OBVIO”, Darcy Ribeiro proferiu a seguinte frase:

“A Crise da Educação no Brasil não é uma Crise, é um Projeto”.

Decerto sabeis por que terá Darcy Ribeiro feito tal afirmação e de que “crise” se tratava. Qual era o projeto a que Darcy se referia?

Também dissera:

“Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca.”

Que o Brasil “não era para amadores” era bem verdade, porque, quanto mais eu conhecia o Brasil, menos o entendia. E, todos os dias… aprendia.

Havia que perguntasse “Em que consiste Praticar Darcy?”

Praticar Darcy consistia em regenerar o sistema educacional, humanizar processos de aprendizagem, conceber uma nova construção social de educação, para que a “crise que era um projeto” se dissipasse. Praticar Darcy significava gerar práxis coerentes, assentes em sólidas bases científicas (não há prática sem teoria) e enquadradas na lei. Praticar Darcy correspondia a praticar Anísio em “círculos de proximidade e de vizinhança”.

Porém, dessa vez, não seria eu a coordenar um processo de mudança. O Núcleo de Projeto, entretanto constituído acompanharia e organizaria os coletivos que viessem a ser formados. E o mesmo aconteceria em muitos lugares do Brasil e de Portugal.

Marcamos encontro para as 10 horas de cada sábado do mês de novembro. No primeiro sábado, foram respondidas várias perguntas: Quem faz parte do vosso núcleo de projeto? Qual o território do vosso círculo de aprendizagem? Quais os valores explícita ou implicitamente constantes do projeto da escola mais próxima da vossa residência? Qual a Carta de Princípios e a fundamentação teórica desse projeto? A prática da escola é coerente com o teor do projeto escrito?

Analisamos o “Programa Especial de Educação” de Darcy (de 1983). Atualizámo-lo e… praticamos Darcy. E foram muitas as mudanças operadas. Dar-vos-ei alguns exemplos:

Constituímos núcleos de projeto, dispositivos centrais do processo de mudança das práticas e do desenvolvimento pessoal e profissional dos educadores, através de encontros realizados com familiares de alunos, funcionários das escolas e outros agentes comunitários, constituindo equipes de projeto;

Analisamos projetos e, se necessário, adaptando-os ao contexto de uma nova construção social: a comunidade de aprendizagem;

Identificamos as matrizes axiológicas dos projetos, através da elaboração de inventários de valores;

Elaboramos cartas de princípios e instituímos acordos de convivência, através da análise de documentos organizadores do trabalho pedagógico, verificando se existia coerência entre a Lei de Bases e os projetos, bem como com os valores predominantes na comunidade de contexto;

Realizamos encontros com e na comunidade, para explicação da proposta de reconfiguração da prática escolar;

Redigimos e aprovamos um “Perfil do Educador” e um “Termo de Compromisso”.

Na cartinha de amanhã, dar-vos-ei a conhecer outras iniciativas.

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Cabuçu, 23 de julho de 2044

Longe vai o tempo em que fui aprender como avaliar por portfólio. Decorria a década de noventa e eu lá ia, em longa jornada e a expensas próprias, até ao lugar onde o amigo Domingos Fernandes – que viria a ser Presidente do Conselho Nacional de Educação, em vinte e dois – partilhava a sua tese de doutoramento.  Nos fins de semana, ia até Lisboa, trabalhar com o Paulo Abrantes, que se apaixonara pela “aprendizagem por competências”, e ao Instituto de Inovação Educacional. Por trinta anos, utilizei um livrinho concebido no I.I.E., de onde constava a imagem que encima esta cartinha. Chegados aos anos vinte deste século, o portfólio já era digital, mas a avaliação permanecia tão anacrónica como décadas atrás, o que me fez recordar um textinho por mim publicado em finais dos anos noventa e que rezava assim:  “Na binária e pacata rotina aula-teste instalara-se perturbação. Os pais dos alunos perguntavam se os exames da quarta classe tinham regressado. E já toda a gente procurava no ...