Não mais esquecerei a primeira visita à casa de Darcy. A Adriana, a Cláudia, a Andréa e a Natália me levaram até lá, e me deixei possuir por forte emoção. Senti que, nesse o lugar teria início um projeto, que deveria resgatar a memória do insigne Mestre.
O
espírito de Darcy se fez presente num breve encontro com excelentes educadores.
Ali, Darcy escrevera derradeiras palavras, quando o câncer consumia o seu
último sopro de vida, depois de sofrer um longo exílio e enquanto o seu país “dormia
distraído”. Darcy regressava ali, onde se esperava recuperar a sua memória.
Em
1977, numa palestra com o título “SOBRE O OBVIO”, Darcy Ribeiro proferiu a
seguinte frase:
“A
Crise da Educação no Brasil não é uma Crise, é um Projeto”.
Decerto
sabeis por que terá Darcy Ribeiro feito tal afirmação e de que “crise” se tratava.
Qual era o projeto a que Darcy se referia?
Também dissera:
“Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se
indignar. E eu não vou me resignar nunca.”
Que o Brasil “não era para amadores” era bem
verdade, porque, quanto mais eu conhecia o Brasil, menos o entendia. E, todos
os dias… aprendia.
Havia
que perguntasse “Em que consiste Praticar Darcy?”
Praticar
Darcy consistia em regenerar o sistema educacional, humanizar processos de
aprendizagem, conceber uma nova construção social de educação, para que a
“crise que era um projeto” se dissipasse. Praticar
Darcy significava gerar práxis coerentes, assentes em sólidas bases científicas
(não há prática sem teoria) e enquadradas na lei. Praticar Darcy correspondia a
praticar Anísio em “círculos de proximidade e de vizinhança”.
Porém,
dessa vez, não seria eu a coordenar um processo de mudança. O Núcleo de
Projeto, entretanto constituído acompanharia e organizaria os coletivos que
viessem a ser formados. E o mesmo aconteceria em muitos lugares do Brasil e de
Portugal.
Marcamos
encontro para as 10 horas de cada sábado do mês de novembro. No primeiro
sábado, foram respondidas várias perguntas: Quem faz parte do vosso núcleo de
projeto? Qual o território do vosso círculo de aprendizagem? Quais os valores
explícita ou implicitamente constantes do projeto da escola mais próxima da
vossa residência? Qual a Carta de Princípios e a fundamentação teórica desse
projeto? A prática da escola é coerente com o teor do projeto escrito?
Analisamos
o “Programa Especial de Educação” de Darcy (de 1983). Atualizámo-lo e…
praticamos Darcy. E foram muitas as mudanças operadas. Dar-vos-ei alguns
exemplos:
Constituímos núcleos de projeto, dispositivos
centrais do processo de mudança das práticas e do desenvolvimento pessoal e
profissional dos educadores, através de encontros realizados com familiares de
alunos, funcionários das escolas e outros agentes comunitários, constituindo
equipes de projeto;
Analisamos projetos e, se necessário,
adaptando-os ao contexto de uma nova construção social: a comunidade de
aprendizagem;
Identificamos as matrizes axiológicas dos
projetos, através da elaboração de inventários de valores;
Elaboramos cartas de princípios e instituímos acordos
de convivência, através da análise de documentos organizadores do trabalho
pedagógico, verificando se existia coerência entre a Lei de Bases e os projetos,
bem como com os valores predominantes na comunidade de contexto;
Realizamos encontros com e na comunidade, para
explicação da proposta de reconfiguração da prática escolar;
Redigimos e aprovamos um “Perfil do Educador” e um “Termo
de Compromisso”.
Na cartinha de amanhã, dar-vos-ei a conhecer outras
iniciativas.
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