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São José, 27 de outubro de 2045

Netos queridos, surpreendestes-vos com a minha afirmação de que o velho Sistema já não mereceria o benefício da dúvida. Mas, foi justa a minha afirmação, apesar das tentativas de interromper o estertor do Sistema, perpetrados por embusteiros de origem vária.

Nos idos de vinte, a escola permanecia estagnada, imersa num pântano de absurdos. Arcaboiços da escola da modernidade tinham perdido sentido e legitimidade. Lamentavelmente, o discurso acadêmico insistia no recurso a conceitos e práticas fósseis, ainda que assumindo um “novo visual” – e estava em voga o chamado “ensino híbrido”.

Explorando a ingenuidade pedagógica da “sociedade líquida”, empresas assaltavam o mercado da educação com o novo “produto”. Iludindo professores de boa-fé. As aclamadas “boas escolas” de educação híbrida eram caricaturas de práticas centenárias ornamentadas com computadores e Internet.

Não poderia faltar a famigerada “sala de aula invertida”. Dela se dizia “colocar o aluno como protagonista”. Grosseira mentira! Era o professor quem “sugeria” (belo eufemismo!) o conteúdo a consumir. Quanto muito, havia uma ou outra busca feita pelo aluno. Em sala de aula (instrucionista!), alunos e professor discutiam em grupo.

Celestin Freinet havia feito o mesmo – e fora mais além! – utilizando ficheiros autocorretivos, no início da década de vinte… do século XX – era ridículo chamar “inovação” à aula invertida.

A prática “híbrida” do modelo “Flex” – como era chamado – consistia em fornecer ao aluno “uma série de atividades a serem realizadas on-line”. Os professores estariam à disposição do aluno, para tirar dúvidas. Isso havíamos feito na Ponte, nos idos de setenta, tempo em que ainda não havia computadores. E de modo bem mais elaborado, porque as “atividades” não eram concebidas pelo professor e impostas aos alunos; eram construídas com os alunos, segundo a velha tradição escolanovista.

Outro modelo indevidamente designado de inovador era o “laboratório rotacional”. Os híbridos” eram hábeis a criar termos de belo efeito, criativos apenas no discurso. Em que consistia o “laboratório”? Num “giro dos alunos em estações, por diferentes modalidades de aprendizado”. Skinerianamente, em cada estação, poderia ser utilizado um recurso diferente. Não se tratava de “aprendizado”, mas de “ensinado”, dado que as “estações” eram planejadas por auleiros, o número de estações e o tempo em cada estação eram determinados por auleiros. Cadê o “sujeito de aprendizagem”? Cadê a “inovação”?

Com a descoberta do computador, a segunda revolução industrial emergiu, para logo dar lugar a uma terceira, aquela que surgiu com a internet e a automação. Os “híbridos” do século XXI apropriavam-se do discurso escolanovista, para maquiar o instrucionismo de entre a primeira e a segunda revolução industrial, em práticas do tempo da máquina a vapor. A escola “híbrida” continuava tão obsoleta como no tempo em que o telégrafo dera lugar ao telefone.

Embora possais ter ficado surpreendidos com o meu comentário, o “Sistema” já não era merecedor do “benefício da dúvida”. Conscientes da necessidade de o regenerar, educadores éticos assumiram a causa, no novembro de 2025 – disso vos falarei.

No 11 de agosto de 24, era criada a Associação da Comunidade de Aprendizagem da Lagoa de Maricá. Foi a partir dela que surgiram os primeiros círculos de aprendizagem. Num primeiro ciclo de mudança, ali se fez uma Escola da Ponte brasileira e se esboçou um lócus de “residência pedagógica”. Depois, ali se gestou uma rede de comunidades. Depois…

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