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Águas Claras, 30 de novembro de 2045

No novembro de há vinte anos, o amigo Léo nos presenteou com uma oportuna mensagem:

“Bom dia! 

Reelaborei o texto que comecei ontem. Segue. Se quiserem comentar, agradeço.  Confesso que essa tem sido minha forma de processar o improcessável:

*A Barricada da Indiferença: Onde a Educação Encontra a Barbárie*

Ainda estou digerindo o ocorrido no Cefet/RJ. É uma tristeza sem tamanho que me atinge de todos os ângulos. Estou abalado não apenas pela empatia com as vidas perdidas — duas mulheres cheias de vida e um homem atormentado —, mas pelo que esse duplo feminicídio seguido de suicídio revela sobre a nossa estrutura social e educacional.

Estamos diante de um cenário onde microagressões transbordam até se tornarem atos de pura crueldade. Duas servidoras foram vítimas de uma estrutura extremamente machista, e o autor, um homem ocupando um emprego historicamente "destinado" às mulheres (pedagogo), possivelmente vivia o conflito de subordinação a uma chefia feminina. Quem está na Rede Federal sabe, talvez na pele, como a relação hierárquica é atravessada pelo gênero e pela desigualdade abissal entre as carreiras docente e técnico-administrativa.

Mas o que mais me assusta é o pano de fundo desse horror: um projeto decrépito de escolarização. Relatos dão conta de que, mesmo com os tiros, houve docente que montou barricada na porta e continuou a aula. Essa atitude é o sintoma máximo de um modelo que não rompeu com os preceitos da ditadura, perpetuando a lógica tecnicista da Lei 5.692/71. Para esse modelo, a morte "atrapalha o trânsito", e a solução é fechar a porta e seguir com o conteúdo, como se a vida lá fora não importasse.

Precisamos parar. Precisamos desaprender esse tipo de sociedade fragmentada que não tem espaço para o sentir. Não podemos esquecer que isso não é um caso isolado: tivemos o professor que morreu em Goiás esperando transferência, as professoras no Paraná sucumbindo à cobrança excessiva, e muitos outras situações que só consigo analisar como situações de crise sistêmica: estamos normalizando a barbárie.

A resposta institucional reflete essa lógica. Enquanto o campus Maracanã suspende atividades de 1º a 5 de dezembro para perícia, as demais unidades apenas decretam luto oficial, mantendo a rotina. E nas outras 180 mil escolas do país? Apenas lamentos virtuais.

Quanto tempo para que o Cefet/RJ volte à "normalidade"? Se nem a pandemia rompeu a lógica produtivista, temo que dois corpos femininos no chão também não o farão. Precisamos urgentemente nos ver, enxergar a boniteza da diversidade em cada existência e desconstruir essa escola que ensina técnica, mas falha em ensinar humanidade. Afinal, não podemos aceitar que morreram apenas na contramão, atrapalhando o tráfego de um sistema que se recusa a parar.

Agradeci ao meu amigo a oportuna missiva e lhe disse:

“Que as mãos nunca te doam, meu amigo. Até quando iremos consentir que um sistema hierárquico, autoritário, obsoleto e corrupto engendre tragédias? O que impede a sua regeneração e humanização?”

À margem de fingimentos, incoerências e absurdos, pacientemente, desenvolvíamos um projeto de formação promotor da reelaboração da cultura profissional de educadores éticos, na consideração do educador como sujeito de aprendizagem, em equipe, na dignidade do exercício da profissão das profissões.

Nesse tempo, se sucediam reformas, programas e projetos, que não punham em causa o “sistema” – a “barbárie” de que o amigo Leo falava tinha origem socioinstitucional, era gestada em práticas de barbárie pedagógica.

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