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Brasília, 25 de novembro de 2045

Há 20 anos, por esta altura, o vosso avô andava por Brasília, em boa companhia. Uma Alma pura me levou a participar na Marcha Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver. Mais de 100 mil mulheres negras partiram do Museu da República em direção ao Palácio do Planalto. Dessa vez, não para perpetrar um assalto, mas para reivindicar cidadania.

Dez anos depois da realização da primeira “Marcha”, mulheres negras (como a Alma) e homens e mulheres de todas as cores se fizeram ouvir, carregando um legado que viera dos seus ancestrais e “projetando um futuro onde a Reparação e o Bem Viver fossem realidade para todas, todos e todes” (assim mesmo foi dito no início da Marcha, apesar de contrariar uma disposição legal, que proibia o uso do substantivo neutro “todes” – neologismo criado nesses tempos de discriminação e exclusão).

Eu diria que uma Marcha dessa natureza poderia chamar-se de “Arco-íris de Humanidade”. Era evidente a segregação e maus-tratos infligidos a descendentes de escravos e que as mulheres de origem africana sofriam piores condições de vida. Mas, o acesso à universidade, por exemplo, era um funil, um instrumento de darwinismo social que prejudicava, igualmente, homens e mulheres negras. Se o Estado quisesse ser magnânimo e praticar equidade, deveria atender ao percentual de negros na sociedade brasileira e não somente às mulheres. Se os negros são mais de metade da população, a cota não deveria ser aquela que foi legislada – deveria ser superior a 50%.

Que me seja perdoada a ironia. O que quero dizer é que, naquele tempo, ainda havia ENEM e outros modos de impedir o exercício de um direito fundamental, sem que as autoridades, legisladores e doutores em educação percebessem que as cotas deveriam ser medidas de transição – se o sistema de ensino fosse regenerado e humanizado, não seriam necessárias tais medidas: seria cumprido o preceito constitucional que diz que a educação é um direito subjetivo, um direito de todos.

Naquele tempo, ainda se teorizava – na prática, nunca existiu – conceitos como o de “educação antirracista”, ou “educação inclusiva”, palavras que soavam a pleonasmos, adjetivação inconsequentemente, pois toda a educação deveria ser antirracista, inclusiva, freirianamente emancipatória, ou não seria educação.

Como diria o Darcy, o Brasil não era para amadores e talvez eu manifestasse estranhezas de europeu convertido ao Sul – quanto mais eu conhecia o Brasil, menos o entendia – mas, a meu ver, “uma Alma não tem cor”. Já o Chico César dizia:

“Percebam que a alma não tem cor / Ela é colorida / Ela é multicolor”.

E o Caetano cantava:

“Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos / Dando porrada na nuca de malandros pretos / De ladrões mulatos e outros quase brancos / Tratados como pretos / Só pra mostrar aos outros quase pretos (E são quase todos pretos) / E aos quase brancos pobres como pretos / Como é que pretos, pobres e mulatos / E quase brancos, quase pretos de tão pobres são tratados”.

Acompanhamos a Suzete negra e o seu companheiro Jean, francês de cor branca, ambos irmanados na luta pelo cumprimento de direitos humanos fundamentais… para os negros, para os quase negros, para os brancos quase brancos, para os quase… todes.

No novembro de 2025, no post-scriptum de uma cartinha publicada no Instagram, escrevi:

E por falar em direitos humanos, deverei lembrar-vos a necessidade de, até ao final do mês de novembro, concluirdes as tarefas que poderão conduzir-vos a uma prática efetivamente antirracista e inclusiva – àquilo que também chamam de… educação integral.