Há 20 anos, por esta altura, o vosso avô andava por Brasília, em boa companhia. Uma Alma pura me levou a participar na Marcha Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver. Mais de 100 mil mulheres negras partiram do Museu da República em direção ao Palácio do Planalto. Dessa vez, não para perpetrar um assalto, mas para reivindicar cidadania.
Dez
anos depois da realização da primeira “Marcha”, mulheres negras (como a Alma) e
homens e mulheres de todas as cores se fizeram ouvir, carregando um legado que
viera dos seus ancestrais e “projetando um futuro onde a Reparação e o Bem
Viver fossem realidade para todas, todos e todes” (assim mesmo foi dito no
início da Marcha, apesar de contrariar uma disposição legal, que proibia o uso
do substantivo neutro “todes” – neologismo criado nesses tempos de
discriminação e exclusão).
Eu
diria que uma Marcha dessa natureza poderia chamar-se de “Arco-íris de
Humanidade”. Era evidente a segregação e maus-tratos infligidos a descendentes
de escravos e que as mulheres de origem africana sofriam piores condições de
vida. Mas, o acesso à universidade, por exemplo, era um funil, um instrumento
de darwinismo social que prejudicava, igualmente, homens e mulheres negras. Se
o Estado quisesse ser magnânimo e praticar equidade, deveria atender ao
percentual de negros na sociedade brasileira e não somente às mulheres. Se os
negros são mais de metade da população, a cota não deveria ser aquela que foi
legislada – deveria ser superior a 50%.
Que
me seja perdoada a ironia. O que quero dizer é que, naquele tempo, ainda havia
ENEM e outros modos de impedir o exercício de um direito fundamental, sem que
as autoridades, legisladores e doutores em educação percebessem que as cotas
deveriam ser medidas de transição – se o sistema de ensino fosse regenerado e
humanizado, não seriam necessárias tais medidas: seria cumprido o preceito
constitucional que diz que a educação é um direito subjetivo, um direito de
todos.
Naquele
tempo, ainda se teorizava – na prática, nunca existiu – conceitos como o de “educação
antirracista”, ou “educação inclusiva”, palavras que soavam a pleonasmos,
adjetivação inconsequentemente, pois toda a educação deveria ser antirracista,
inclusiva, freirianamente emancipatória, ou não seria educação.
Como
diria o Darcy, o Brasil não era para amadores e talvez eu manifestasse
estranhezas de europeu convertido ao Sul – quanto mais eu conhecia o Brasil,
menos o entendia – mas, a meu ver, “uma Alma não tem cor”. Já o Chico César dizia:
“Percebam
que a alma não tem cor / Ela é colorida / Ela é multicolor”.
E
o Caetano cantava:
“Pra
ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos / Dando porrada na nuca de
malandros pretos / De ladrões mulatos e outros quase brancos / Tratados como
pretos / Só pra mostrar aos outros quase pretos (E são quase todos pretos) / E
aos quase brancos pobres como pretos / Como é que pretos, pobres e mulatos / E
quase brancos, quase pretos de tão pobres são tratados”.
Acompanhamos
a Suzete negra e o seu companheiro Jean, francês de cor branca, ambos irmanados
na luta pelo cumprimento de direitos humanos fundamentais… para os negros, para
os quase negros, para os brancos quase brancos, para os quase… todes.
No
novembro de 2025, no post-scriptum de uma cartinha publicada no Instagram,
escrevi:
E
por falar em direitos humanos, deverei lembrar-vos a necessidade de, até ao
final do mês de novembro, concluirdes as tarefas que poderão conduzir-vos a uma
prática efetivamente antirracista e inclusiva – àquilo que também chamam de…
educação integral.
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