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Caetité, 20 de novembro de 2025

Foram muitas as horas de viagem pelas estradas do interior da Bahia, vendo garrafas e latas arremessadas por energúmenos, que dirigiam automóveis, ultrapassando em curvas. No rádio do carro, quase tudo era lixo sonoro – na terra de Caymmi, Caetano e Bethânia, nem uma só vez escutei as suas vozes. A caminho de Caetité, passei por Brumado. Ali, na margem do São Francisco, o povo sofria de... falta de água potável. O que terá tudo isso a ver com a Educação e com o Anísio?

Anísio postulava que o aluno deveria ser o centro do processo de aprendizagem, mas a administração educacional impunha às escolas práticas instrucionistas, nas quais o centro era o professor.

Uma secretaria citava Anísio no documento orientador da política educacional do estado (“Currículo em Movimento”). Mas o currículo imposto às escolas pela secretaria de educação impedia o “movimento”, estava parado no tempo.

Os funcionários dessa secretaria chamavam “escola classe” e “escola parque” – conceitos criados por Anísio – a alguns prédios que, nesse tempo, eram considerados “escolas”. Mas as práticas desenvolvidas dentro desses prédios eram em tudo contrárias à proposta do Anísio da “Escola Nova”.

A escola-classe, que Anísio tentou instalar em Brasília, em meados do século passado, foi rechaçada, em abaixo-assinado, pela população de um bairro de classe média alta, com o apoio da administração. E, nesse já distante 2020, os burocratas instalados nas secretarias da educação assassinavam projetos que, concretizados, tornariam realidade o sonho escolanovista e assegurariam a todos o direito à educação. Impunemente, a burocracia perpetrava o segundo assassinato de Anísio Teixeira: a morte da memória.

Desde que me conheço e me reconheço como professor, o amigo Nóvoa pregava no deserto, dizendo ser necessário passar do pedocentrismo para a aprendizagem, da normalização para a diferenciação, da separação para a reunião.

Enquanto isso, os seus colegas da academia e do ministério faziam-se desentendidos, irredutivelmente se mantendo… pedocentrados, normalizados, separados. Enchiam a boca de Anísio, Anísio para cá, Anísio para lá, em devaneios teóricos sem fim. Mas, na prática traíam Anísio. Também, teorizavam

Darcy sem praticar Darcy e veneravam Freire enquanto praticavam “educação bancária” – eram freirianos não praticantes.

As escolas do passado eram cemitérios de talentos, túmulos de inovações. A escola absorvera funções tradicionais da família e da vida comunitária e que à vida comunitária deveria ser devolvida, dado que, nas palavras do mestre Anísio, “a educação de um povo somente em parte se faz pelas suas escolas”.

Lamentavelmente, no tempo de potencial mudança, ao invés de se retomar Anísio, apenas se disputava uma cadeira de ministro ou  secretário. Mais uma vez, se hipotecava o futuro da educação, a troco de negociatas de baixa política. Não se cuidava de preparar a atualização da mensagem do malogrado Mestre, que pugnava por uma nova escola, aquela substituísse a reprodução de “formas arcaicas de ensino pela exposição oral e reprodução verbal”.

Anísio estava consciente de que, para haver inovação pedagógica, se requereria inovação normativa. Não poderíamos continuar estrangulados pelo legalismo, que o Mestre criticava: “como se alterar a posição de uma disciplina no currículo ou diminuir-lhe ou aumentar-lhe uma aula fosse considerada uma ‘reforma de ensino’”.

Por falar em currículo, aproveito para vos lembrar a necessidade da criação dos Grupos de Trabalho (GT locais e os municipais).

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