Pular para o conteúdo principal

Rio, 26 de novembro de 2025

Os projetos humanos contemporâneos não se coadunam com práticas escolares concebidas, há mais de duzentos anos e que carecem de um novo sistema ético e de uma matriz axiológica baseada no saber cuidar e conviver. Urge abandonar estereótipos e preconceitos, transformando uma Escola obsoleta numa escola que a todos e a cada assegure oportunidades de ser e de aprender – que confira a todos os seres humanos o direito à educação.

Urge regenerar e humanizar um sistema de ensino obsoleto, hierárquico, autoritário e corrupto, conceber novas construções socais de aprendizagem, nas quais, efetivamente, se concretize uma educação integral.

Urge constituir redes de comunidades de aprendizagem, que promovam desenvolvimento humano sustentável – a educação é convivencial. Se a modernidade tende a remeter-nos para uma ética individualista, nunca será demais falar de convivência e diálogo enquanto condições de aprendizagem.

A partir do que somos, do que sabemos e do que sabemos fazer, urge afirmar a possibilidade de mudar e de inovar. Porém, o campo da inovação está armadilhado.

Durante quatro anos, andei por terras mineiras, assentei arraiais perto de Brumadinho, lugar onde centenas pereceram por humana incúria. Por essas paragens e em Belo Horizonte conheci a Isabel, o Helder, a Norma, a Maria, a Gracinha e muitos outros anônimos educadores, de quem não resta memória escrita, nem do bem que fizeram. Cada qual a seu modo, tentaram desocultar uma estranha cegueira, epidemia de que muitos professores padeciam.

Talvez já conheçais esta estória, mas arrisco contá-la...

Decorria o mês de maio de 1968, quando Agostinho da Silva assim falou perante os deputados da Câmara:

Na Universidade, o professor tem sido um sujeito que entra para dar aulas. A Universidade ficou no século XIX e os alunos já estão no século XX, ou no século XXI”.

Meio século decorrido, Bauman falava-nos de uma cegueira moral, de uma cegueira ética, a cegueira daqueles que veem, enquanto Saramago metaforicamente se referia a uma cegueira social, quando apelava ao dever moral dos que enxergam.

No seu “Ensaio sobre a Cegueira”, usou a expressão “cegueira branca”, não se referindo à cegueira física, mas à cegueira moral, a uma peculiar “patologia”. O termo foi usado para representar a recusa de ver:

O medo cega, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos.”

Sendo a cegueira social uma sutil forma de alienação, Saramago nos convidava a uma reflexão sobre o estarmos cegos:

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

Talvez fosse intenção do autor recorrer à palavra “repara” numa dupla conotação: ao ato de “ver, claramente visto”, como Pessoa diria. Mas, também, ao ato de “reparar”: posicionar-se, agir para corrigir.

Vivemos num tempo de cegueira branca e fingimos não ver:

É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade” – concluía o pessimista Saramago.

Nutro profunda admiração pelo escritor, mas opto por ser esperançoso, por acreditar na remissão dos pecados da minha espécie. Apesar do que vejo…

Aproxima-se o final de novembro, mês em que apelei a que tomásseis uma decisão ética essencial – a nossa cultura pessoal e profissional é o principal obstáculo à mudança – agora, vos convido a completar o cumprimento das tarefas previstas no nosso processo formativo, a saber:

Participar nas redes de comunidades de aprendizagem;

Ensinar a praticar pesquisa;

Instalar dispositivos de reconfiguração das práticas;

Praticar avaliação formativa, contínua e sistemática.

Amanhã, concluiremos o rol de tarefas.

Postagens mais visitadas deste blog

Ubatuba, 17 de junho de 2045

Enquanto me afastava das terras e do mar caiçaras, recordava bons momentos, reencontros, aprendizagens, e lia aquilo que a minha amiga Roze escrevera sobre o evento que preparara com muito esmero: “O Pirão das Letras acabou.  Durante três dias alimentou corações famintos por acolhimento, reconhecimento e valorização. Todos provaram da porção que precisavam. Uns gostaram mais do tempero da alegria – outros, da esperança. Teve quem também se deliciou apenas com o calor do fogo, essencial para produzir o Pirão, principalmente em tempos gélidos como os de hoje. O Pirão das Letras acabou, mas teve gente que não foi embora sem levar um tantinho dele consigo. A fartura era tanta, que deu até para levar para casa (um livro, uma memória, uma emoção, um riso, um abraço quentinho de afeto). Os braços daqueles que por três dias mexeram o pirão estão exaustos, mas as almas estão leves, como leve são os passarinhos que carregam as sementes e, assim, cumprem o propósito divino de disseminar nova ...