O prometido é devido – as próximas cartas farão a avaliação da “avaliação” que por aí se vai fazendo.
Numa
Mostra de Projetos, um secretário de educação aludiu a um entretenimento de
teoricistas ociosos e políticos boçais: o da “aprovação automática”. Concluiu o
discurso dizendo que deveria haver “uma terceira possibilidade de avaliar entre
a aprovação automática e a reprovação automática”.
Na
posição de observador atento, iria aferi-la, tendo por referência um artigo do
Mestre Pedro:
“Abordo
a proposta do processo formativo sem cronometragens artificiais em anos,
séries, ciclos. A mania de cronometrar processos não físicos, como
aprendizagem, é resquício positivista instrucionista, que recua à gestão “científica”
de Taylor, quando cronometrou, tintim por tintim, processos produtivos e modos
de os agilizar.”
Assisti a inúmeras campanhas eleitorais imersas na
costumeira mesmice das promessas já prometidas e disparates proferidos por
candidatos. Não me intrometeria nas contendas, não fora escutar alguns falando
dos malefícios do que denominam de “aprovação automática”, mas que, na
realidade, é uma distorção do que poderia ser a prática da “progressão continuada”.
Presumo que todos os candidatos afinem pelo mesmo
diapasão, dado que o disparate se democratizou. E, porque os candidatos a
eleitos não falam com conhecimento de causa, imagino o tipo de assessores que
redigem os seus discursos. Os identifico com os teoricistas da Educação, porque
muitas destas criaturas fazem coro com os disparates dos políticos.
O que acontece em muitas escolas brasileiras não é
progressão continuada, tal como a lei a estabelece, mas perversão automática. O
que acontece é uma confusão contínua e não uma avaliação continuada.
Confunde-se avaliação com classificação. Confunde-se avaliação com aplicação de
provas. Confunde-se avaliação formativa (contínua, sistemática, centrada em processos,
participada) com o facilitismo de uma “progressão automática”, que perverte
qualquer esforço no sentido de colocar algum rigor na avaliação. E é sobre os
efeitos dessa perversão que os políticos – e, infelizmente, muitos professores –
apoiam a sua “argumentação”.
Iniciam
o seu exórdio repetindo a ladainha de carpideira habitualmente usada pelos
profetas da desgraça, em que o sistema de ensino é pródigo. Exibindo as
impressionantes cifras do insucesso, criam o ambiente propício à demonização da
“aprovação automática”, apresentando propostas de extinção da… “progressão
continuada”.
É
grave, se não fosse trágico o obsceno silêncio dos “doutores em educação”. É
certo que as cifras do insucesso são assustadoras. Segundo sucessivos censos
educacionais, muitos milhões de crianças matriculadas não conseguem aprender
aquilo que é considerado básico, estatisticamente, muitos milhões são lesadas
no seu direito a aprender.
Acrescentam
os “doutores” que, “segundo autoridades do SAEB, do INEP e do MEC, a elevada
incidência de reprovação e evasão decorre da dificuldade em aprender com aquilo
que eles denominam de “atuais procedimentos de ensino”.
Já dizia o Nunziatti que a Escola mudaria através da
avaliação, ou nunca mudaria. Comecei por aplicar uma “lista de verificação”
daquilo que de inovador diziam existir – deparei com essa referência aos “atuais
procedimentos de ensino” – dirigi uma pertinente pergunta aos senhores doutores:
Alguém
me poderá dar o endereço de uma escola onde eu possa encontrar esses famigerados
“atuais procedimentos de ensino”?
Ninguém
deu.
