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Embu, 28 de dezembro de 2045

Nos idos de 25, quase não existia avaliação nas escolas. Nelas, os professores (e ministérios) confundiam avaliação com classificação ostracizando a avaliação que a lei prescrevia. Também no domínio da avaliação, se agia à margem da lei.

Um ministro de má memória introduziu mais exames no sistema na expectativa da sua melhoria – os “especialistas” sabiam que os exames quase nada avaliavam, mas se calavam.

Os testes eram os instrumentos de avaliação falíveis. Conceber itens de testes, garantir fidelidade e tudo mais eram um exercício extremamente rigoroso, assim como assegurar que as condições seriam as mesmas para todos, quando se aplicasse testes. E a correção de um teste também padecia de enorme subjetividade.

Além disso, esses instrumentos de avaliação apenas “provavam” a capacidade de acumulação cognitiva, de armazenamento de informação em memória de curto prazo, para debitar num exame e… esquecer.

Em muitas escolas aplicava-se teste e se “dava nota” a partir dos resultados dos testes, transpondo dados de prova para uma escala ordinal (aqui caberia uma explicação “técnica”, que, obviamente, irei evitar). E, nas reuniões das “semanas de avaliação” – tempo perdido e pedagógico absurdo – se alegava considerar uma percentagem da nota dada a partir da avaliação de atitudes. Porém, não eram apresentados instrumentos de avaliação, que permitissem medir atitudes como a autonomia, ou a criatividade – a avaliação era feita a ‘olhómetro’.

Um ex-ministro afirmara que as provas globais começavam a ser inúteis, mas – vá-se lá saber porquê! – outro ministro ressuscitou um tenebroso debate alimentado da ingenuidade de uns quantos e da militância reacionária de tantos outros.

Qualquer pessoa minimamente avisada, minimamente conhecedora dos ainda ocultos saberes das ciências da educação – o bode expiatório de todos os males que apoquentavam a educação – sabia que a solução não passaria por haver mais exames. Aliás, a Finlândia os extinguira, quase por completo!

Se quiséssemos falar de avaliação em linguagem de gente, poderíamos dizer que a quase exclusiva utilização de um mesmo tipo de instrumento de avaliação fora responsável por graves erros – atenda-se ao exemplo do candidato a medicina que, por uma centésima, não acedeu ao curso desejado.

Os fervorosos defensores dos inúteis exames saberiam em que consiste assegurar a validade ou a fidelidade de um item? Saberiam aquilatar da subjetividade da correção de uma prova de exame? Teriam conhecimento das grosseiras fraudes que os exames engendravam? Teriam passado, alguma vez, pela angústia da espera de um resultado, teriam sido afetados por uma ansiedade geradora de bloqueios?

Os debutantes das coisas da Educação não leram nos jornais notícias de frequentes e abissais alterações de pontuação que decorreram da reapreciação de recursos – literaturas especializadas não teriam lido, a avaliar pelos disparates que iam debitando na comunicação social.

Freudenthal dizia-nos que o exame se tornara um objetivo; o que vinha para exame; um programa; o ensino da matéria para exame, um método.

E o Iturra:

“Na vertigem das reformas educativas dos últimos cem anos, a memória transmitida é a abstração escrita de um saber variável, que se identifica com a sua própria memória oral como fonte de conhecimento. A cultura letrada que organiza o ensino não tem sido capaz de romper com o modelo imperante de eficácia económica e incorporar a prática social como mediadora entre o saber da experiência controlada e o saber que provém da experiência provada”.

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Cabuçu, 23 de julho de 2044

Longe vai o tempo em que fui aprender como avaliar por portfólio. Decorria a década de noventa e eu lá ia, em longa jornada e a expensas próprias, até ao lugar onde o amigo Domingos Fernandes – que viria a ser Presidente do Conselho Nacional de Educação, em vinte e dois – partilhava a sua tese de doutoramento.  Nos fins de semana, ia até Lisboa, trabalhar com o Paulo Abrantes, que se apaixonara pela “aprendizagem por competências”, e ao Instituto de Inovação Educacional. Por trinta anos, utilizei um livrinho concebido no I.I.E., de onde constava a imagem que encima esta cartinha. Chegados aos anos vinte deste século, o portfólio já era digital, mas a avaliação permanecia tão anacrónica como décadas atrás, o que me fez recordar um textinho por mim publicado em finais dos anos noventa e que rezava assim:  “Na binária e pacata rotina aula-teste instalara-se perturbação. Os pais dos alunos perguntavam se os exames da quarta classe tinham regressado. E já toda a gente procurava no ...