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Inoã, 27 de dezembro de 2045

Em Portugal, diretores de escola reconheciam que “a retenção não resolvia o problema do insucesso” e o Conselho Nacional de Educação recomendava o fim das reprovações. O estudo "Retenção Escolar no Ensino Básico em Portugal" concluía que os alunos que reprovavam não retiravam qualquer benefício de terem ficado retidos. Ao “repetir o ano”, os resultados eram os mesmos ou inferiores aos do ano anterior.

A Comissão Europeia criticava a "cultura da retenção", afirmando que a “bomba" brasileira e o “chumbo” português deveriam ser substituídos por respostas ao que designavam por “dificuldades de aprendizagem”. Um especialista corroborava esse parecer, acrescentando que era o modelo de ensino que promovia o insucesso:

Estamos a preparar os alunos da mesma forma que preparávamos há cinquenta, ou cem anos, baseando o ensino exclusivamente na capacidade de reproduzir conteúdo. Ensinamos tudo a todos da mesma maneira e ao mesmo tempo, o que já não faz qualquer sentido”.

Não se reprovava porque não havia livros em casa, ou porque a mãe era analfabeta – é certo que fatores socioeconómicos e culturais influíam na “reprovação”, mas quem deveria ser reprovada seria a Escola. A origem do insucesso era, sobretudo, de origem socioinstitucional.

No primeiro ano da pandemia, o Estado havia contraído uma enorme dívida para com os jovens. Por via do modelo educacional adotado, o Estado incorrera no crime de abandono intelectual, impunemente praticado e jamais reconhecido. Para colmatar prejuízos, o ministro da educação anunciou um programa de “tutorias” a triplicar no ano letivo seguinte.

O chamado “apoio tutorial específico” era dirigido a alunos com historial de retenções, mais concretamente com duas ou mais reprovações. Seriam mobilizados “125 milhões para se proceder a um reforço muito significativo de recursos humanos nas escolas”, para garantir a recuperação de aprendizagens que ficaram por fazer no primeiro ano da pandemia. 

Naquele tempo, o paliativo “recuperação” dos “alunos de menor rendimento” nada recuperava, nem disfarçava. Muitos professores serviam-se da “recuperação” para punir alunos que recusavam assistir às inúteis aulas online, ou que não cumpriam “atividades”.

Antes da pandemia, a “recuperação” acontecia depois das provas de fim de um trimestre, num processo paralelo às aulas causadoras de “atraso na aprendizagem” (sic). E os professores reagiam:

“Como posso fazer recuperação de um ou dois alunos, se tenho de dar aula para outros trinta?”

Identificada a “dificuldade de ensinagem” sentida pelos professores, a “recuperação” era transferida para o contra-turno. A alternativa era a “paralisação das aulas, durante uma semana para recuperação”.

Uma secretaria criou uma prova padronizada, para aplicar a meio do ano letivo, “com o intuito de melhorar o desempenho dos alunos a meio do ano”, isto é: estabeleceu-se a ideia do ciclo, sem romper com o modelo seriado. Outra secretaria de educação confundia “aprovação automática” com progressão continuada e adotava “períodos de recuperação trimestral”, insistindo na obsoleta lógica das classes de “reforço”, um subproduto de uma prática de ensino obsoleta. As escolas eram obrigadas a parar as aulas, durante uma semana, para que se fizesse a “semana da avaliação”. As provas de acesso à Universidade eram exercícios de decoreba, meros instrumentos de darwinismo social. Enfim!

Nos idos de vinte, como durante o século XX, a prática de uma “avaliação”, que pouco ou nada avaliava, era um verdadeiro “cortejo de horrores”.