Em Portugal, diretores de escola reconheciam que “a retenção não resolvia o problema do insucesso” e o Conselho Nacional de Educação recomendava o fim das reprovações. O estudo "Retenção Escolar no Ensino Básico em Portugal" concluía que os alunos que reprovavam não retiravam qualquer benefício de terem ficado retidos. Ao “repetir o ano”, os resultados eram os mesmos ou inferiores aos do ano anterior.
A
Comissão Europeia criticava a "cultura da retenção", afirmando que a
“bomba" brasileira e o “chumbo” português deveriam ser substituídos por
respostas ao que designavam por “dificuldades de aprendizagem”. Um especialista
corroborava esse parecer, acrescentando que era o modelo de ensino que promovia
o insucesso:
“Estamos a preparar os alunos da mesma forma
que preparávamos há cinquenta, ou cem anos, baseando o ensino exclusivamente na
capacidade de reproduzir conteúdo. Ensinamos tudo a todos da mesma maneira e ao
mesmo tempo, o que já não faz qualquer sentido”.
Não se
reprovava porque não havia livros em casa, ou porque a mãe era analfabeta – é
certo que fatores socioeconómicos e culturais influíam na “reprovação”, mas
quem deveria ser reprovada seria a Escola. A origem do insucesso era,
sobretudo, de origem socioinstitucional.
No
primeiro ano da pandemia, o Estado havia contraído uma enorme dívida para com
os jovens. Por via do modelo educacional adotado, o Estado incorrera no crime
de abandono intelectual, impunemente praticado e jamais reconhecido. Para
colmatar prejuízos, o ministro da educação anunciou um programa de “tutorias” a
triplicar no ano letivo seguinte.
O
chamado “apoio
tutorial específico” era dirigido a alunos com historial de retenções, mais
concretamente com duas ou mais reprovações. Seriam mobilizados “125 milhões
para se proceder a um reforço muito significativo de recursos humanos nas
escolas”, para garantir a recuperação de aprendizagens que ficaram por
fazer no primeiro ano da pandemia.
Naquele
tempo, o paliativo “recuperação” dos “alunos
de menor rendimento” nada recuperava, nem disfarçava. Muitos professores serviam-se da “recuperação” para punir
alunos que recusavam assistir às inúteis aulas online, ou que não cumpriam
“atividades”.
Antes da pandemia, a “recuperação” acontecia depois das
provas de fim de um trimestre, num processo paralelo às aulas causadoras de
“atraso na aprendizagem” (sic). E os professores reagiam:
“Como posso fazer recuperação de um ou dois alunos, se tenho
de dar aula para outros trinta?”
Identificada a “dificuldade de ensinagem”
sentida pelos professores, a “recuperação” era transferida para o contra-turno.
A alternativa era a “paralisação das aulas, durante uma semana para
recuperação”.
Uma secretaria criou uma prova padronizada,
para aplicar a meio do ano letivo, “com o intuito de melhorar o desempenho dos
alunos a meio do ano”, isto é: estabeleceu-se
a ideia do ciclo, sem romper com o modelo seriado. Outra secretaria
de educação confundia “aprovação automática” com progressão continuada e adotava
“períodos de recuperação trimestral”, insistindo na obsoleta lógica das classes
de “reforço”, um subproduto de uma prática de ensino obsoleta. As escolas eram
obrigadas a parar as aulas, durante uma semana, para que se fizesse a “semana
da avaliação”. As provas de acesso à Universidade eram exercícios de decoreba,
meros instrumentos de darwinismo social. Enfim!
Nos idos de vinte, como durante o século XX,
a prática de uma “avaliação”, que pouco ou nada avaliava, era um verdadeiro
“cortejo de horrores”.
