Na noite de passagem de ano, o Marcos desfolhava livros como quem lia – o Marcos lia e balbuciava uns sons, só aparentemente, desconexos. Eu, que estou longe de ser um entendido na palavra pura, que ainda confundo uma arenga babélica com a fala transparente, não conseguia traduzir o seu balbuciar. Este avô, ainda que empenhado no desaprender do palavrear adulto, ainda deturpa o verbo virginal, confundindo-o com o linguarejar de adultos tagarelas.
Subitamente, o meu neto suspendeu a
leitura e fixou o olhar num ponto qualquer, como quem depara com o Aleph.
Fiquei a observá-lo, discretamente, para não interromper a absorvente contemplação.
Segui a direcção do seu olhar. Fixava-se num dos gestos rituais de passagem de
ano, protagonizado por um tio que engolia uvas passas com um semblante
demasiado concentrado para quem apenas está ingerindo alimento.
Não suspeitava o Marcos, mas estava
sendo sujeito a aculturação, ao contemplar um adulto comendo uvas raquíticas e
formulando desejos para um ano que começava, e no qual iria repetir os mesmos
erros que desejou não cometer no último dos dias do ano anterior.
Os adultos são mesmo assim, não têm
remédio. Vivem viciados no futuro.
Os educadores de há vinte anos escutavam
de palestrantes e políticos a expressão “Educação do Futuro”, uma expressão
referindo um futuro que nunca mais chegava, um futuro sempre adiado.
Quando o amigo Rubem distinguia otimismo de esperança,
dizia-nos que o otimismo era da natureza do tempo, enquanto a esperança era da
natureza da eternidade – “Kairós”,
palavra grega, significa
“o momento oportuno”, tem o mesmo sentido
que “Aevum”, que significa “Eternidade”.
Dizia o meu amigo que
também havia o tempo que se mede com as batidas do coração.
Ao coração falta a precisão uniforme dos cronómetros, porque as suas batidas
dançam ao ritmo da vida – e da morte. Tranquilo, de repente agita-se, dá
saltos, tropeça…
Os gregos davam o nome
de Kairós no contraponto com Kronos, o tempo cronológico – a nossa civilização
tem palavras para dizer o tempo dos relógios, mas perdeu as palavras para dizer
o tempo do coração.
No Kairós que me resta, tentarei
reconstituir o conteúdo de documentos dispersos e castigados pelas intempéries
do tempo em que o vosso avô ensaiava uma discreta retirada de uma longa
andarilhagem. Creio que talvez eles possam interessar a algum arqueólogo da
Educação, pois documentam um período áureo feito de profundas transformações.
Com escrevi, algures, os projetos
humanos contemporâneos não se coadunavam com práticas escolares concebidas, há
mais de duzentos anos e que careciam de um novo sistema ético e de uma matriz
axiológica baseada no saber cuidar e conviver.
Urgia abandonar estereótipos e
preconceitos, transformando uma Escola obsoleta numa Escola que a todos e a
cada qual assegurasse oportunidades de ser e de aprender – que conferisse a
todos os seres humanos o direito à educação.
Urgia regenerar e humanizar um sistema
de ensino obsoleto, autoritário e corrupto, conceber novas construções socais
de aprendizagem, nas quais, efetivamente, se concretizasse educação integral.
Urgia constituir redes de comunidades de
aprendizagem, que promovessem desenvolvimento humano sustentável, convivencial.
Se a modernidade tendia a remeter-nos para uma ética individualista, não seria
demais falar de convivência e diálogo enquanto condições de aprendizagem.
A partir do que éramos, do que sabíamos
e do que sabíamos fazer, urgia afirmar a possibilidade de mudar e inovar,
dialeticamente… dialogando, debatendo.
