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Itapuã, 31 de dezembro de 2045

Na noite de passagem de ano, o Marcos desfolhava livros como quem lia – o Marcos lia e balbuciava uns sons, só aparentemente, desconexos. Eu, que estou longe de ser um entendido na palavra pura, que ainda confundo uma arenga babélica com a fala transparente, não conseguia traduzir o seu balbuciar. Este avô, ainda que empenhado no desaprender do palavrear adulto, ainda deturpa o verbo virginal, confundindo-o com o linguarejar de adultos tagarelas.

Subitamente, o meu neto suspendeu a leitura e fixou o olhar num ponto qualquer, como quem depara com o Aleph. Fiquei a observá-lo, discretamente, para não interromper a absorvente contemplação. Segui a direcção do seu olhar. Fixava-se num dos gestos rituais de passagem de ano, protagonizado por um tio que engolia uvas passas com um semblante demasiado concentrado para quem apenas está ingerindo alimento.

Não suspeitava o Marcos, mas estava sendo sujeito a aculturação, ao contemplar um adulto comendo uvas raquíticas e formulando desejos para um ano que começava, e no qual iria repetir os mesmos erros que desejou não cometer no último dos dias do ano anterior.

Os adultos são mesmo assim, não têm remédio. Vivem viciados no futuro.

Os educadores de há vinte anos escutavam de palestrantes e políticos a expressão “Educação do Futuro”, uma expressão referindo um futuro que nunca mais chegava, um futuro sempre adiado.

Quando o amigo Rubem distinguia otimismo de esperança, dizia-nos que o otimismo era da natureza do tempo, enquanto a esperança era da natureza da eternidade – “Kairós”, palavra grega, significa “o momento oportuno”, tem o mesmo sentido que Aevum, que significa “Eternidade”.

Dizia o meu amigo que também havia o tempo que se mede com as batidas do coração. Ao coração falta a precisão uniforme dos cronómetros, porque as suas batidas dançam ao ritmo da vida – e da morte. Tranquilo, de repente agita-se, dá saltos, tropeça…

Os gregos davam o nome de Kairós no contraponto com Kronos, o tempo cronológico – a nossa civilização tem palavras para dizer o tempo dos relógios, mas perdeu as palavras para dizer o tempo do coração.

No Kairós que me resta, tentarei reconstituir o conteúdo de documentos dispersos e castigados pelas intempéries do tempo em que o vosso avô ensaiava uma discreta retirada de uma longa andarilhagem. Creio que talvez eles possam interessar a algum arqueólogo da Educação, pois documentam um período áureo feito de profundas transformações.

Com escrevi, algures, os projetos humanos contemporâneos não se coadunavam com práticas escolares concebidas, há mais de duzentos anos e que careciam de um novo sistema ético e de uma matriz axiológica baseada no saber cuidar e conviver.

Urgia abandonar estereótipos e preconceitos, transformando uma Escola obsoleta numa Escola que a todos e a cada qual assegurasse oportunidades de ser e de aprender – que conferisse a todos os seres humanos o direito à educação.

Urgia regenerar e humanizar um sistema de ensino obsoleto, autoritário e corrupto, conceber novas construções socais de aprendizagem, nas quais, efetivamente, se concretizasse educação integral.

Urgia constituir redes de comunidades de aprendizagem, que promovessem desenvolvimento humano sustentável, convivencial. Se a modernidade tendia a remeter-nos para uma ética individualista, não seria demais falar de convivência e diálogo enquanto condições de aprendizagem.

A partir do que éramos, do que sabíamos e do que sabíamos fazer, urgia afirmar a possibilidade de mudar e inovar, dialeticamente… dialogando, debatendo.

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