No tempo da proto-história da Educação, bom senso nem sempre era sinónimo de juízo. Como em tudo o resto, supunha-se que no reino da Educação assim fosse, que prevalecesse o bom senso, o senso crítico. Porém, parecia predominar o mais elementar senso comum.
Num
jornal diário, li esta notícia:
“Professores,
pais e estudantes do Rio de Janeiro protestaram contra a resolução da
Secretaria Municipal de Educação, que acabou com os conceitos de “ótimo” e
“insuficiente” na avaliação dos alunos do Ensino Fundamental. Com isso, os
estudantes da rede municipal não podem mais ser reprovados. O Sindicato dos
Profissionais de Educação do Rio vai entrar com ação no Ministério Público para
revogar a decisão”.
Como
sindicalista, senti-me traído. Como professor, envergonhado. Não seria fugindo
para a frente que se conseguiria valorizar a imagem social da profissão, mas
encarando os desafios.
A
resolução chegava fora de tempo, era mera distração de políticos, mas os
professores não deveriam “deitar fora o menino com a água do banho”. Dever-se-ia
aproveitar a oportunidade para abrir um debate sério sobre o assunto. Porque a
taxa de repetência na primeira série do ensino fundamental não andava longe dos
40%. E muitos alunos chegavam à quarta série sem terem aprendido a ler.
Logo
se apontava a “progressão continuada” (prefiro o espírito e a letra desta
designação) como responsável, esquecendo que os estados com maior taxa de
repetência não adotavam o sistema de ciclos nem a dita “aprovação automática”.
No
mesmo jornal, também li que:
“A
organização pedagógica consagrada é baseada na avaliação constante e não em
notas e repetência. Mas a implantação é falha. É mais uma história da boa ideia
que foi mal aplicada e mal-entendida. A falta de discussão e preparação para a
organização pedagógica em ciclos e a progressão continuada manchou o nome de
uma concepção de educação consagrada. Muitos pais, professores e até o
presidente da República ainda não entendem a proposta.”
Esse
era um tempo de memória curta. Talvez por isso, ouvi uma professora exclamar:
"Que
bom que ainda há aluno repetindo o ano! Isso prova que ainda há escolas sérias
que exigem aprendizagem!”
Eu
não queria acreditar naquilo que escutava. Quanta confusão entre reprovação
e... seriedade!
Ainda
mais frustrante foi o que observei, no decurso de um congresso realizado no
Rio, alguns dias após a publicação da referida notícia. O ambiente da sala era
tenso e a pergunta dirigida aos palestrantes era esperada:
“Os
senhores são a favor ou contra a progressão continuada?”
A
uma pergunta direta deveria corresponder uma resposta direta. Porém, os
conferencistas não disseram “sim”, nem “não”. Responderam “nim”. Fazendo uso do
discurso de desculpabilização, disseram o que os professores queriam ouvir e
foram ovacionados.
Um
político afirmou que a “promoção automática” era como dar alta a um doente sem
os devidos exames. As suas palavras fizeram-me recordar a clássica pergunta: se
a melhor escola é a que mais alunos reprova, o melhor hospital será o que mais
doentes mata?
Felizmente,
havia quem não padecesse de corrupção intelectual. Vozes autorizadas para
dirimir a polémica tomaram posição. Rose Neubauer veio dizer-nos que “a
reprovação feita nas escolas públicas não recuperava deficiências e se tornava
uma condenação ao fracasso”. Lamentável foi que ninguém lhe desse ouvidos.
Nos
idos de vinte, ainda havia quem confundisse avaliação com classificação. Ainda
havia professores que aplicavam prova, “davam nota” e não faziam avaliação.
