Na avaliação que ainda vamos tendo por hegemónica, é bem visível a ancestral prática seletiva. O ensino em massa é coerente com uma avaliação em massa. Os professores lamentam o dispêndio de tempo posto na correção de exames e alegam que o ministério os explora como mão-de-obra barata. O ministério, por sua vez, gasta fortunas em comissões a quem compete elaborar os testes e coordenar o serviço de exames, em viaturas e seguranças que transportam envelopes lacrados como se fossem as jóias da coroa.
Se
outra razão não houvesse para acabar de vez com exames, uma razão se imporia –
associada à ideia de exame há sempre a probabilidade de utilização de
“copianços” (a “cola” e a “pesca” brasileiras). Para cada sala de exame que se
preze, são escalados professores que, supostamente, são o garante de que os
examinados não “copiam”.
Os
“vigilantes” partem do pressuposto de que todo o aluno é, até prova em
contrário, potencialmente desonesto – haverá princípio mais antipedagógico que
este?
O
professor-polícia fica calado, mas o não-verbal fala mais alto. Um professor
não transmita aquilo que diz, transmite aquilo que é. E, sem disso se
aperceber, está a transmitir valores negativos: a mentira, a falsidade, a
corrupção…
Será
difícil perceber que não é com mais exames “facilitistas” que se conseguirá
redimir o sistema de todos os males que o afetam? Ainda não se percebeu que o
sistema é passível de melhorar se os professores deixarem de perder tempo a
ensinar para exames? É assim tão difícil entender que do que se decora para um
exame, e depois de “vomitado” se esquece, pouco ou nada fica?
Um
exame é, normalmente, um teste de papel e lápis, que pouco ou mesmo nada
avalia. Só quem não conhece outros e mais fiáveis modos de fazer avaliação
poderá defender o desperdício. Eu poderei entender que os leigos deem tratos de
polé ao assunto e abordem a problemática na perspetiva do senso comum. Até
poderei entender que, à míngua de uma sólida e coerente formação, muitos
professores se refugiem na segurança do que melhor conhecem e dominam. Mas,
cadê os “especialistas”, os “Peagadeuses”? É obsceno o seu silêncio perante a
grave situação.
A
maioria dos professores aprendeu a fazer (até à exaustão) dos bancos da
instrução primária à mesa de docência, fichas, provas, testes, frequências,
exames orais e escritos sem conta! Como alguém disse, foram “facilitistas”. Só não consigo entender
os responsáveis que insistem na ideia peregrina e facilitista de que os exames
poderão constituir-se na panaceia redentora dos males que afetam o sistema
educativo.
Compreendo
a insistência em introduzir paliativos num modelo de ensino moribundo. Nas
escolas que, infelizmente, ainda vamos tendo, há alunos que não conseguem
atingir metas. E é preciso acrescentar aulas de recuperação, “explicações”,
“planos educativos individuais”, “centros de estudo” (que crescem
exponencialmente).
As
classes de apoio, os “planos de recuperação” e outras compensatórias medidas
pedagógicas são enfeites paliativos de nulo efeito – aquilo que não se ensina
em oito meses, não é em um mês de plano com mais do mesmo que se vai ensinar.
Não é com mais horas de aula que se vai ensinar mais, é com outro tipo de
aprendizagem, é numa organização do trabalho escolar coerente com a Lei de
Bases.
A
reprovação é a prova de que realmente a escola não funciona como deveria
funcionar. Muitas vezes se diz que os professores são exigentes quando
reprovam. A pergunta que eu faço é: se a escola melhor é a que mais alunos
reprova, o melhor hospital é o que mais doentes mata?
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