Um episódio trágico deu que pensar... Um aluno de escola próxima cometera suicídio – eu sei que custa aceitar a ideia do suicídio na infância, mas a criança em causa, ao que pude apurar, há muito evidenciava comportamentos que poderiam ter sido sinais de alarme – ficamos atentos a pormenores.
A
Inês ficava fixando os olhos num ponto qualquer e se ausentava. O Júlio
infligia a si próprio um contínuo sofrimento, com qualquer objeto cortante que
estivesse à mão, se automutilava. O Vasco alternava súbitos gritos com longos
períodos de prostração.
Falou-se
de desencontros, de falta de comunicação, de sofrimentos. O que, até então,
poderia ser considerado tabu, passou a ser encarado como déficit de atenção.
Não que aqueles professores andassem distraídos, mas que não se perderia nada
em atentar em insignificantes significâncias.
A
caixinha dos segredos (assim foi batizada pelos alunos) passou a encher-se de
mensagens de seres sedentos de diálogo. Havia os que colocavam na caixinha
papéis dobrados e bem colados, escrevendo por fora:
“É
para a professora F…”
E
a professora lia:
“Professora,
a minha irmã mais velha tem um curso, mas não arranja emprego. Ao jantar, há
sempre discussão. O meu pai diz que ela é uma preguiçosa e que na idade dela
ele já trabalhava. Ontem, à noite, o meu pai levantou-se da mesa e atirou com o
telefone à cabeça da minha irmã. Eu fugi para o meu quarto. Nem jantei. Não sei
o que fazer.
A
professora pode ajudar-me?”
As
professoras ajudavam, discretamente, sem saber que começavam a esboçar o perfil
de um professor-tutor.
Havia
as cartas de amor decoradas com corações e setas:
“Se
gostas de mim, põe uma cruzinha à frente do “eu gosto de ti”. Depois volta a
pôr na caixinha dos segredos”.
Os
professores percorriam as salas, fazendo a entrega do correio sentimental. Mas
não se pense que a redobrada atenção se resumia à atividade epistolar e aos
encontros que dela decorriam – um professor-tutor não tem por vocação ser mero
confidente ou médico de almas.
Os
papéis de um professor-tutor vão muito mais além, porque, felizmente, muitas das
crianças são filhos felizes de famílias felizes.
Por
ora, direi que, um pouco mais atentos, os professores acharam dramas e medos
até então ocultos. No afago sereno das palavras, devolveram aos pequenos seres
a confiança perdida. E, quando pensavam estar a monda do sofrimento acabada,
surgia novo motivo de preocupação.
O
professor viu duas meninas, uma de cabeça pousada no ombro da outra, a outra
passando a sua mão no rosto da companheira. Viu lágrimas no rosto desta.
Aproximou-se. Seria, certamente, mais um arrufo de namoradinho, ou zanga de
amigas:
“Então,
o que se passa?”
“Ó
professor, ela disse-me que, ontem, o pai dela se zangou com a mãe, e que
dormiu no sofá da sala. Está muito triste e diz que não quer voltar para casa”.
“Deixa
lá, pequena!” – disse o professor, para aligeirar, ao aperceber-se de que a
aluna já tinha interiorizado um sentimento de culpa – “Quando chegares a casa,
vais ver que os teus pais já estão de bem um com o outro! Os adultos são assim,
miúda! Não te preocupes! Não fiques triste!”
Esperava
resposta da chorosa, mas quem lhe respondeu foi a que não chorava: “É,
professor, eu também já lhe tinha dito que não vale a pena chorar. Os meus pais
já não se falam, nem dormem juntos há dois anos, mas que eu já não me importo
com isso. Quero lá saber!”
O
professor confuso, sem saber se deveria condoer-se da menina chorosa, ou
abraçar aquela que lhe respondera – Há ocasiões em que um homem chora.
Por
que há escolas com salas de aula, que são arquipélagos de solidões?
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