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Cajueiros, 7 de janeiro de 2026

Um episódio trágico deu que pensar... Um aluno de escola próxima cometera suicídio – eu sei que custa aceitar a ideia do suicídio na infância, mas a criança em causa, ao que pude apurar, há muito evidenciava comportamentos que poderiam ter sido sinais de alarme – ficamos atentos a pormenores.

A Inês ficava fixando os olhos num ponto qualquer e se ausentava. O Júlio infligia a si próprio um contínuo sofrimento, com qualquer objeto cortante que estivesse à mão, se automutilava. O Vasco alternava súbitos gritos com longos períodos de prostração.

Falou-se de desencontros, de falta de comunicação, de sofrimentos. O que, até então, poderia ser considerado tabu, passou a ser encarado como déficit de atenção. Não que aqueles professores andassem distraídos, mas que não se perderia nada em atentar em insignificantes significâncias.

A caixinha dos segredos (assim foi batizada pelos alunos) passou a encher-se de mensagens de seres sedentos de diálogo. Havia os que colocavam na caixinha papéis dobrados e bem colados, escrevendo por fora:

“É para a professora F…”

E a professora lia:

“Professora, a minha irmã mais velha tem um curso, mas não arranja emprego. Ao jantar, há sempre discussão. O meu pai diz que ela é uma preguiçosa e que na idade dela ele já trabalhava. Ontem, à noite, o meu pai levantou-se da mesa e atirou com o telefone à cabeça da minha irmã. Eu fugi para o meu quarto. Nem jantei. Não sei o que fazer.

A professora pode ajudar-me?”

As professoras ajudavam, discretamente, sem saber que começavam a esboçar o perfil de um professor-tutor.

Havia as cartas de amor decoradas com corações e setas:

“Se gostas de mim, põe uma cruzinha à frente do “eu gosto de ti”. Depois volta a pôr na caixinha dos segredos”.

Os professores percorriam as salas, fazendo a entrega do correio sentimental. Mas não se pense que a redobrada atenção se resumia à atividade epistolar e aos encontros que dela decorriam – um professor-tutor não tem por vocação ser mero confidente ou médico de almas.

Os papéis de um professor-tutor vão muito mais além, porque, felizmente, muitas das crianças são filhos felizes de famílias felizes.

Por ora, direi que, um pouco mais atentos, os professores acharam dramas e medos até então ocultos. No afago sereno das palavras, devolveram aos pequenos seres a confiança perdida. E, quando pensavam estar a monda do sofrimento acabada, surgia novo motivo de preocupação.

O professor viu duas meninas, uma de cabeça pousada no ombro da outra, a outra passando a sua mão no rosto da companheira. Viu lágrimas no rosto desta. Aproximou-se. Seria, certamente, mais um arrufo de namoradinho, ou zanga de amigas:

“Então, o que se passa?”

“Ó professor, ela disse-me que, ontem, o pai dela se zangou com a mãe, e que dormiu no sofá da sala. Está muito triste e diz que não quer voltar para casa”.

“Deixa lá, pequena!” – disse o professor, para aligeirar, ao aperceber-se de que a aluna já tinha interiorizado um sentimento de culpa – “Quando chegares a casa, vais ver que os teus pais já estão de bem um com o outro! Os adultos são assim, miúda! Não te preocupes! Não fiques triste!”

Esperava resposta da chorosa, mas quem lhe respondeu foi a que não chorava: “É, professor, eu também já lhe tinha dito que não vale a pena chorar. Os meus pais já não se falam, nem dormem juntos há dois anos, mas que eu já não me importo com isso. Quero lá saber!”

O professor confuso, sem saber se deveria condoer-se da menina chorosa, ou abraçar aquela que lhe respondera – Há ocasiões em que um homem chora.

Por que há escolas com salas de aula, que são arquipélagos de solidões?

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