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Iguabinha, 6 de janeiro de 2026

Daniel Pennac viveu uma escolaridade desastrosa. Dizia ser um péssimo aluno, vítima de uma “disortografia infantil”… e acabou professor de literatura. Referência em pedagogia, é autor do "Diário de Escola", no qual nos fala sobre os principais valores a serem resgatados pela educação contemporânea.

Em 1979, realizou uma estadia de dois anos no Brasil e escreveu o romance “O ditador e a cama de rede”. Regressado à França, começou a escrever para as crianças e publicou “Como um Romance”, um ensaio de pedagogia ativa, lúcida e entusiasta, no qual apresenta o que chama de “Direitos imprescritíveis do leitor”:

“Não se pode forçar uma curiosidade, temos que despertá-la”.

“Que pedagogos éramos quando não tínhamos a preocupação da pedagogia!” – exclama Daniel na sua obra “Como um Romance” - aparte os formalismos, as preocupações excessivas com métodos, resultados e acertos, existem valores que crianças, pais e professores compartilham. Estes valores são os pilares da educação e precisam ser resgatados.

Fui um aluno lerdo, com dificuldades de aprendizagem, o meu desempenho beirava o sofrível”.

Neste espaço, venho repetindo perguntas, até hoje, sem resposta. Uma delas se refere à solidão em sala de aula. A pergunta objetiva é sempre a mesma:

Por que razão se continua a dar aula em sala de aula?

Estaremos possuídos por uma “cegueira moral’, com que Bauman acordou os sentidos de muitos educadores?

Embora talvez custe acreditar, existe um bichinho que nasce, vive e morre dentro de uma bromélia – uma bromélia é o seu berço e o seu túmulo. E a semelhança com a platônica caverna não é mera coincidência.

No ano da graça de 2026, ainda há gente “encaixotada”, que se diz “fora da caixa” – não ousam seguir o rasto de luz que, de fora da caixa, lhes chega. Padecem de uma cegueira ética, a cegueira daqueles que podendo ver, optam por recusar ver, a cegueira social, com que Saramago apelava ao dever moral daqueles que enxergavam.

Tal como o bichinho da bromélia, a grande maioria dos educadores não se interrogam. Muto menos interrogam o mundo – mal não viria ao mundo, se esse viver “dentro da caixa” não aportasse prejuízo, mas essa cegueira crônica foi funesta, ao longo de dois séculos. Inconscientes cegos impediram que uma nova construção social surgisse, que a Escola se redimisse de velhos pecados e que o direito à Educação a todos fosse assegurado.

As memórias de um Daniel estigmatizado como incapaz e a sua luta como professor de jovens tão estigmatizados quanto ele deram origem ao best-seller “Diário de Escola”:

“Fui um mau estudante, porque tinha medo de não saber responder as perguntas que os adultos me faziam. Todo esse medo da infância se transformou em conhecimento. Meu trabalho, como adulto, é curar as crianças desse medo.

A reação dos adultos é sempre a mesma: eles também têm medo. Têm medo de que seus filhos nunca tenham sucesso. Os professores também têm medo de serem maus professores.

Tudo isso tem a ver com a solidão. Solidão da criança, do professor, dos pais. O que é preciso fazer é acabar com essa solidão – Meu trabalho, como adulto, é curar as crianças do medo.

Pedagogicamente, como se acaba com a solidão? Criando projetos em comum, onde todos estão envolvidos”.

Sigamos o exemplo do Daniel, conversemos, tranquila e construtivamente, em todo o tempo e lugar.

E, também, nos encontros de sábado (o próximo acontecerá no dia 17). Peço que sejamos pontuais e que… oremos. Proponho que, no início dos encontros, fiquemos alguns instantes em silêncio, em memória das vidas e dos sonhos que o sistema de ensino destruiu.

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