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Maricá, 2 de janeiro de 2026

Ontem, quando cumpria um ritual de início de ano – vasculhar o baú das velharias – achei um textinho no qual o amigo Matias, citava outro bom amigo, o Miguel, que, num dos livros que eu levaria para uma ilha deserta (“No coração da escola”), dizia ser a escola uma instituição em que apenas se pergunta às pessoas: "o que sabes?" E muito poucas vezes se pergunta: "o que sentes?" 

Pelos 17 anos de idade, eu queria ser missionário. Porém, para o ser, eu precisaria de ser casto e humilde, e eu não era uma coisa nem outra. Desse incumprido desiderato restou a assunção de um voto de pobreza, que não me permite acumular riqueza material.

Sobejou uma vida de fazer amigos – eu sou rico de amigos, que abrem caminhos novos de mudança e de inovação, que dedicam a sua vida à causa das crianças, à humanização do ato de ensinar e aprender, muitos, mas mesmo muitos amigos que, ao longo dos últimos cinquenta anos, fizeram o favor de me ajudar a não desistir.

 

No seu livro "O que é a escola”, o meu saudoso amigo Rui Canário nos dizia que o problema dos professores e o problema dos alunos era o mesmo problema, convidando a uma relação de aliança e não de confronto. Escutemo-lo:

“Pode ser o início de uma metamorfose nos modos de pensar e de agir na profissão? 

Pode ser o início de uma política de emancipação e libertação? 

O que sentes, tu, professor, quando ninguém se importa com as tuas dúvidas, com as tuas dores físicas ou sentimentais, quando tens de dizer bom dia vamos então lá a lição número 55, o sumário é os sistemas lineares em ambientes caóticos, e quase ninguém escreve, quase ninguém liga, fala para o lado e para trás e a tua alma sangra e no teu peito bate um coração aflito, quase desesperado e exangue, quando tens de mesmo quando te apetece chorar, quando tens de encarcerar todos os teus sentimentos e apenas te permites que seja a máquina pensante, a máquina que ensina, a máquina. 

O que sentes tu, aluno, quando o professor faz o ditado da matéria e tu nada entendes, quando és humilhado de mil e uma formas, quando tens uma nota que não corresponde aos teus saberes, quando a tua princesa encantada voou dos teus olhos e foi morar para longe de ti, ou quando o amor lateja intensamente e tem de ficar preso numa impossibilidade, quando o professor tem de dar o programa todo e tu te ficas apenas pela metade.

Em nome dos exames, do acesso ao ensino superior, da meritocracia, da justiça e da igualdade de oportunidades, da igualdade de frequência, da igualdade de sucesso. E da inclusão.

Triste é este mundo dos sistemas, triste é esta máquina do sistema, triste é esta vida desumana, triste é esta separação, esta alienação. Esta desesperança. Resta-nos pensar, agitar, acordar. Agir e interagir para construirmos outros pequenos mundos. Habitáveis. Humanos.

Precisamos de construir uma “arca de aliança” entre professores e alunos. Entre professores, alunos e pais. Uma aliança inscrita no território onde os professores podem ter uma voz poderosa e reconhecida. Porque é aí que o reconhecimento e autoridade pode ser retomados. E onde uma “nova política” pode emergir - procurar para sair do labirinto onde todos nos perdemos.”

No primeiro dia de janeiro, enviei aos meus amigos votos de feliz novo ano. Em particular, àqueles que, no WhatsApp da UNIPROSA pugnam por uma “nova política”, uma nova Educação. também deles, esperançosamente, aguardo as iniciativas de regeneração do sistema de ensino e a de humanização do ato de educar. Mais uma vez, lhes pergunto:

“Vamos conversar?”

Construamos a “arca de aliança entre professores e alunos”, que o amigo Rui Canário propunha.

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