Apesar da tenra idade do meu neto, já houve quem lhe dirigisse a pergunta sacramental:
“O que queres ser, meu menino, quando
fores grande?”
O Marcos, que decidiu ser autor de si,
não respondeu – perguntou:
“O que é que eu quero que seja o que eu
quero ser?”
Não foi por acaso que ele assim agiu.
Ele sabia que já tinham perguntado o mesmo à mana Alice:
“O que pensas ser, quando fores grande.,
minha menina?”
“Eu quero ser veterinária, minha
senhora!”
“Então, vais ter de ir à escola, vais
ter de estudar muito, minha menina.”
“E para que tenho eu de andar na escola,
minha senhora?” – quis saber a Alice. “Porque é assim, minha menina. Os
pequenos vão para a escola, os grandes vão trabalhar.”
“Então, eu acho que já não quero ser
grande.” – rematou a Alice.
Razão tinha Jesus, quando disse que o
homem velho não tardará a interrogar, ao longo dos seus dias, uma criança,
porque só as crianças e os loucos falam verdade, como diria o Friedrich.
Os seres humanos que são crianças
crescidas – as do Caeiro – renascem a todo o instante. Cada manhã é mais um
pretexto para recomeçar – ritualizar o crepúsculo de cada dia, ou o primeiro dia
de um novo ano, tanto faz! São gestos de todos os dias, que restituem aos dias
que despontam ou cessam o suave mistério da vida sem tempo calculado.
Talvez se vá por aí, até ao alcançar do
dom da imortalidade, que os alquimistas, em vão, perseguiram, e que os
poderosos nunca lograram comprar. É simples penetrar a harmonia de um universo
sem princípio nem fim. Basta reconhecer essa verdade indelével no sereno
respirar de uma criança.
Viver não é mais do que sorrir perante
um calendário, compadecer-se da angústia dos que ainda creem que é o tempo que
passa. Muita infelicidade humana findará quando se desfizer o mito da
existência de um tempo medido. Nada acaba, quando se acaba um ano. Quando um
ramo seca, novo ramo germina, quando uma certeza tomba na arca das
inutilidades, novas doutrinas, tão perecíveis como as perecidas, se esboçam, no
rendilhado tecer das efémeras ciências.
É durável somente o que faz sentido que
se renove ou transforme em cada um dos nossos transitórios dias. Do mesmo modo,
nenhum modelo educativo é perene – já cá faltava o falar de escola, não é?... –
e, por essa razão, dou comigo formulando as mesmas perguntas de há trinta ou 50
anos:
Por que razão o ano letivo tem o seu
início em setembro, ou em fevereiro? Por que não em janeiro?
Que 2026 seja o ano da interpelação de tabus
e interditos, o ano da humanização da Escola. Que de uma Escola agonizante possam
emergir práticas protagonizadas por educadores, que compreenderam que escolas
não são prédios com salas de aula.
Congratulo-me com a iniciativa de
universidades, que se assumem como “multidiversidades”. E reconheço no afã dos mestres
de antanho alguns pontos de luz, pontos de partida para uma reflexão necessária
e urgente. Acredito que os professores que o são saberão equilibrar-se no arame
das experiências exitosas.
Por que continuamos a sacrificar tempo
a uma pressuposta homogeneidade cronometrada, quando sabemos existir um tempo
próprio, o de cada qual?
Esse desperdiçado tempo é o mesmo
tempo idolatrado em cada início de “ano civil” e, cronicamente, reconhecido
insuficiente para dar todo o programa, no final de cada... “ano letivo”?
Talvez porque um “ano letivo” já não tenha
qualquer sentido, os professores assinalam o seu início, retomando velhas
aspirações, projetos adiados, projetos que talvez pudessem ser realizados no...
ano letivo seguinte.
Quando ensinamos e aprendemos? Alguém me
saberá dizer por que existe “ano letivo”?
