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Mata de São João, 3 de janeiro de 2025

Apesar da tenra idade do meu neto, já houve quem lhe dirigisse a pergunta sacramental:

“O que queres ser, meu menino, quando fores grande?”

O Marcos, que decidiu ser autor de si, não respondeu – perguntou:

“O que é que eu quero que seja o que eu quero ser?”

Não foi por acaso que ele assim agiu. Ele sabia que já tinham perguntado o mesmo à mana Alice:

“O que pensas ser, quando fores grande., minha menina?”

“Eu quero ser veterinária, minha senhora!”

“Então, vais ter de ir à escola, vais ter de estudar muito, minha menina.”

“E para que tenho eu de andar na escola, minha senhora?” – quis saber a Alice. “Porque é assim, minha menina. Os pequenos vão para a escola, os grandes vão trabalhar.”

“Então, eu acho que já não quero ser grande.” – rematou a Alice.

Razão tinha Jesus, quando disse que o homem velho não tardará a interrogar, ao longo dos seus dias, uma criança, porque só as crianças e os loucos falam verdade, como diria o Friedrich.

Os seres humanos que são crianças crescidas – as do Caeiro – renascem a todo o instante. Cada manhã é mais um pretexto para recomeçar – ritualizar o crepúsculo de cada dia, ou o primeiro dia de um novo ano, tanto faz! São gestos de todos os dias, que restituem aos dias que despontam ou cessam o suave mistério da vida sem tempo calculado.

Talvez se vá por aí, até ao alcançar do dom da imortalidade, que os alquimistas, em vão, perseguiram, e que os poderosos nunca lograram comprar. É simples penetrar a harmonia de um universo sem princípio nem fim. Basta reconhecer essa verdade indelével no sereno respirar de uma criança.

Viver não é mais do que sorrir perante um calendário, compadecer-se da angústia dos que ainda creem que é o tempo que passa. Muita infelicidade humana findará quando se desfizer o mito da existência de um tempo medido. Nada acaba, quando se acaba um ano. Quando um ramo seca, novo ramo germina, quando uma certeza tomba na arca das inutilidades, novas doutrinas, tão perecíveis como as perecidas, se esboçam, no rendilhado tecer das efémeras ciências.

É durável somente o que faz sentido que se renove ou transforme em cada um dos nossos transitórios dias. Do mesmo modo, nenhum modelo educativo é perene – já cá faltava o falar de escola, não é?... – e, por essa razão, dou comigo formulando as mesmas perguntas de há trinta ou 50 anos:

Por que razão o ano letivo tem o seu início em setembro, ou em fevereiro? Por que não em janeiro?

Que 2026 seja o ano da interpelação de tabus e interditos, o ano da humanização da Escola. Que de uma Escola agonizante possam emergir práticas protagonizadas por educadores, que compreenderam que escolas não são prédios com salas de aula.

Congratulo-me com a iniciativa de universidades, que se assumem como “multidiversidades”. E reconheço no afã dos mestres de antanho alguns pontos de luz, pontos de partida para uma reflexão necessária e urgente. Acredito que os professores que o são saberão equilibrar-se no arame das experiências exitosas.

Por que continuamos a sacrificar tempo a uma pressuposta homogeneidade cronometrada, quando sabemos existir um tempo próprio, o de cada qual?

Esse desperdiçado tempo é o mesmo tempo idolatrado em cada início de “ano civil” e, cronicamente, reconhecido insuficiente para dar todo o programa, no final de cada... “ano letivo”?

Talvez porque um “ano letivo” já não tenha qualquer sentido, os professores assinalam o seu início, retomando velhas aspirações, projetos adiados, projetos que talvez pudessem ser realizados no... ano letivo seguinte.

Quando ensinamos e aprendemos? Alguém me saberá dizer por que existe “ano letivo”?

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