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Bosque Fundo, 20 de novembro de 2043

Creio ser oportuno fazer um pouco de história, para que uma memória tradicionalmente curta não apague   Há uns quarenta anos, professores, secretários de educação, famílias me pediam que fizesse “uma Escola da Ponte”. Eu já lera o Darcy antropólogo e o Darcy educador. Já ia perdendo o meu etnocentrismo europeu e ajudando a desfazer mitos. Nunca faria réplicas de uma escola onde, em três décadas de resiliência e sofrimento, contra ventos e marés de maldade, tinha sobrevivido.  Em Campinas, São Paulo, Natal, Contagem, Lajeado, São José do Rio Preto, Brasília, Belo Horizonte, Cotia e em outros lugares onde despontavam projetos com potencial inovador, logo surgiam manobras de destruição.  Visitava escolas “montessorianas”, “waldorfianas”, “freinetianas”, “freirianas” e lá não via vestígios de Montessori, Steiner, Freinet ou Freire. O “centro” continuava a ser o professor. E, se retirássemos das salas de aula os raros vestígios de escolanovismo, precários paliativos e mod...

Brasília, 19 de novembro de 2043

Netos queridos, em outra cartinha, falei-vos de alguns “impactos” sofridos no início da profissão de professor. Como quando aceitei o convite para trabalhar numa universidade, esperando vir a aprender algo que me permitisse melhorar o trabalho que ia sendo feito na Ponte.  Ledo engano! No primeiro dia de formador, joguei no lixo os papéis encimados pela expressão “registos de presença”. No projeto (escrito) daquela instituição estava escrito que se pretendia “formar professores autônomos e responsáveis”. Como se poderia atingir esse objetivo impondo instrumentos de controle? Não tardou que enfrentasse animosidade, pois havia alunos, que faltavam às “aulas” de outros professores controladas por registos de presença, para participar nos meus encontros de aprender a ser professor.  Chegaram notícias de destrutiva crítica, provindas de professáurios, que diziam ser o meu trabalho “uma porcaria” e que ameaçavam os alunos de “reprovar por faltas”. Pedi aos alunos que convidassem ess...

Mendes, 18 de novembro de 2043

O 12º ENARC foi um separador de águas, uma espécie de balanço de erros e fracassos, juntamente com uma vontade indômita de recomeçar. Foi tempo de distanciamento crítico – o que tínhamos andado a fazer, ao longo de cinquenta anos?  Enquanto uns tantos, teoricamente, debatiam mudança e inovação, outros as vivenciavam no chão de escola. Eram dois submundos paralelos, que urgia religar. Um currículo eurocêntrico jamais questionado obstava a que se praticasse Darcy. Concursos e premiações como a do “Professor do Ano” eram reflexo de uma cultura profissional feita de solidão e de autossuficiência. Na era das “palestras”, se replicava “lugares-comuns” num discurso pedagógico vazio:  “Práticas pedagógicas inovadoras; desenvolvimento de competências do século XXI”; “pensamento crítico e autoria; “atender a diferentes ritmos e necessidades dos alunos”; “educação integral”; “trabalho autónomo e diferentes estilos de aprendizagem centrados no aluno.”  E cadê o “centro no aluno”? Emp...