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Moita, 28 de setembro de 2043

Ontem, descrevi-vos algumas das impressões colhidas num encontro que viria a marcar o rumo do projeto das Novas Construções Sociais. Após o encontro das Caldas da Rainha, o WhatsApp fervilhava de animadoras mensagens:

“Conseguiu-se o primeiro objetivo. Agora falta concretizar o tal grupo de trabalho”

“Encontrei à saída uma presidente super motivada. Peço desculpa não me ter despedido, mas tive de entrar na aula... menos à antiga, mas ainda num formato semelhante. Beijinhos.”

“Repetindo o que disse o Secretário de Estado António Leite: “Não se deixem amedrontar pela linguagem técnica e burocrática. O ministério está disponível para receber as vossas propostas. Se o Professor Zé tivesse cumprido tudo, nunca teria feito nada.” 

“Saímos com uma porta aberta! Vamos aproveitar! Voltaremos a ver-nos em novembro. Muito muito obrigada a todos pelo trabalho, dedicação e iniciativa. Haverá mais! Sementes lançadas. Vamos em frente.”

Era forte o sentimento de que havia chegado o momento de entregar em boas mãos o destino de um projeto iniciado há mais de meia centena de anos.

Sempre que vou a Portugal, não deixo de matar saudades da Moita, o destino seguinte do périplo de há vinte anos. 

Nesse prodigioso setembro, com novo alento, partimos (eu e o Luís) para o Colégio Corte Real e Escola Profissional da Moita. Por lá, confirmamos expectativas, observando a coerência entre projetos escritos e práticas efetivas. No preâmbulo ao seu projeto educativo, líamos este belo naco de prosa pedagógica:

“As escolas, na sua essência, sempre foram os locais privilegiados para se cultivar o desenvolvimento das comunidades através da partilha do saber. Muitas foram, até hoje, as experiências realizadas no nosso sistema educativo. Desde a Lei de Bases de 1986, que a diversidade da resposta e a definição dos modelos de organização escolar tem sofrido profundas e sistemáticas alterações, certamente sempre na perspectiva de construir uma escola melhor, mas sem a necessária maturidade temporal, fundamental para a consolidação dos seus projetos educativos.”

Comunidade. Senso crítico. Clareza conceptual e disponibilidade para partilhar práticas co-construídas. No site disponível na velha Internet eram evidentes tais intenções:

“É verdade, muitas vezes, nas próprias equipas pedagógicas, menorizamos a importância da nossa missão – criar! Criar com intencionalidade um impacto que se quer provocar. Sabemos que a simples conjugação de fatores, contextos e recursos não garante a criação de algo novo e o que procuramos criar – Projetos de Vida, de todas aquelas e aqueles, que connosco vivem durante um período significativo das suas vidas, os nossos jovens, mas também com todos aqueles que apoiam na co-construção, a nossa equipa.”

Fomos amavelmente rececionados pela Marta e pelo André, que nos apresentaram os seus professores, começando pelo Paulo, a Estrela, mais a estagiária Carlota e a Aparecida. Não consigo lembrar-me dos nomes de todos os educadores presentes no encontro, que decorreu durante toda a manhã. Apenas resta a recordação de um tempo de saudável convívio e muita aprendizagem. 

Após o encontro, o Christian, o Gustavo e outros estudantes, acompanhados do Mestre João, nos presentearam com requintadas iguarias, saboreadas a preceito. E na boa companhia do amigo Luís, partimos para Lisboa. Levávamos a alma lavada e sacos com belos presentes. Mas, nas papilas gustativas, só eu levava os agradáveis eflúvios de um vinho caseiro. Por se comportar como “motorista”, o amigo Luís não o pudera beber. 


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