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São Paulo, 28 de outubro de 2043

O outubro de vinte e três findava, os conflitos não cessavam e duas desditosas notícias me chegavam. Na Palestina, quase metade das vítimas da guerra eram crianças. Em São Paulo, falecia a minha amiga Rosinha. Só Deus leva os que ama. E nos roubou, em plena juventude, um dos mais belos seres humanos que conheci. Ainda guardo algumas missivas recebidas dessa grande amiga, entre o tempo das visitas ao casebre do Capão Redondo até à criação da sua biblioteca, ao seu casamento e à mudança para uma casinha simples, no subúrbio da São Paulo. “Querido Professor, peço perdão pelo desencontro. Que pena! Queria muito conversar contigo. Mas, meu celular estava desligado, enquanto eu estava na sala de aula. Gostaria de revê-lo. Quando o senhor voltar, a gente se vê. Quando o senhor chegar em SP, é só me ligar e eu irei ao seu encontro. Se quiser vir ficar aqui na escola, fique a vontade. Tenha uma semana abençoada, repleta de amor, felicidade. Aproveite muito os momentos com seus netinhos.” No rodapé dos seus e-mails, a Rosinha tinha “colado” um pedaço de texto do livro “Para Alice, com Amor”: "É simples penetrar a harmonia de um universo sem princípio nem fim, basta reconhecer esta verdade indelével no sereno respirar de uma criança." Conduzido pelos olhos de apoena da minha amiga Rosinha, refiz a leitura desse livrinho, pois ela via com olhos que vêem para além do que existe. Com olhos de criança, penetrava a harmonia do infinito. Enquanto não visitava o Marupiara, mantínhamos o contato virtual: “Professor, ando sumida, me recuperando de uma grande dor por ter perdido o meu pai e meu avô. Sou uma pessoa movida pelo amor por outras pessoas. Quando fico sem elas, fico sem motivos para ser feliz. O tempo está me ensinando a viver sem meu pai. Aos poucos vou conseguir aceitar a ausência física dele. Outras notícias mais amenas são as dificuldades para continuar aprendendo a aprender no universo da vida profissional. As coisas por aqui não andam boas. Eu também já não estou feliz aqui. Ontem, queria ter conversado mais. Mas, fiquei com medo de não ter ônibus para ir até o metrô. Por último e a notícia linda e abençoada é que eu me casei e estou imensamente feliz com o meu amor. Ele é um homem maravilhoso!” Partilhei e as tristezas e alegrias da Rosinha. E, sempre que ia a São Paulo, procurava disponibilizar um tempo para ir até ao Marupiara, onde a biblioteca, que a Rosinha cuidava com extremo desvelo, atraía jovens para os encantos da leitura. Colhi muitas lições de amorosidade dessa nordestina sensível e competente bibliotecária. Em meados do mês de agosto de há vinte anos, recebi este e-mail: “Quem te escreve é Ronaldo Barreto. Eu trabalhei por 14 anos junto com a Rosinha. Esta mensagem é somente para partilhar contigo que a nossa querida Rosinha está passando por um problema grave de saúde. Ela está internada. Foi diagnosticada com um AVC.” Não me foi possível visitá-la no hospital. Fui sabendo do seu grave estado de saúde, até receber nova e triste mensagem do amigo Ronaldo: Professor, quem te escreve é Ronaldo. Recebemos a notícia de que, infelizmente, nossa querida Rosinha faleceu, uma querida amante da literatura e doce bibliotecária, que cuidava dos livros, fazendo as crianças ativas na leitura e na imaginação. Tristeza, Zé Pacheco! A educação fica em luto.” Queridos netos, convosco partilho belas e tristes palavras, vos dou a conhecer a existência de um anjo que passou pela Terra. Se, anonimamente, a Rosinha se retirou do convívio dos vivos, que permaneça na memória daqueles que tiveram o privilégio de com ela conviver.

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