Para contribuir para a redação da matriz e da Carta, partilhei com as coordenações das ARCAs alguns escritos. E, pouco antes do Natal de vinte e três, chamei a atenção dos GT para a necessidade de elaborar os relatórios dos primeiros 180 dias, bem como realizar, com caráter de urgência, uma reunião.
Foi-me dito que os participantes dos GT estavam ocupados com “papelada”, com as “formaturas” e as “avaliações”. As “avaliações” não eram avaliações, eram rituais absurdos, decorrentes de um absurdo maior – o de confundir avaliação com classificação – e “dar nota”. Cadê a avaliação formativa, contínua e sistemática?
Quanto à “papelada” e outras burocráticas quanto inúteis tarefas, eram não poderiam ser pretexto para não reativar o funcionamento dos grupos de trabalho. Eu me cansara de adiamentos e falsos pretextos e de comentários deste tipo:
“Ó Professor Zé, você tem de ser mais tolerante!”
Em tempos idos, eu havia publicado um livrinho com o título “Dicionário de Valores em Educação”. Um dos verbetes que nele incluí dava pelo nome de… “Tolerância”.
O texto tinha início numa epígrafe:
“Tolerância não significa aceitar o que se tolera”
Era Mahatma Gandhi quem o dizia.
O termo “tolerância” tem origem na palavra “tolerare”, que significa “suportar pacientemente”. E eu já suportara, pacientemente, mais de cinquenta anos de adiamentos e falsa tolerância.
Poder-se-ia aceitar que a paciência fosse suporte de indiferença?
Poder-se-ia “tolerar” que todas as atitudes fossem consideradas legítimas, suportáveis?
Se o fizéssemos, incorreríamos num “relativismo tolerante”, no qual a verdade e a mentira se equivaleriam.
Talvez se devesse substituir a uma tolerância à margem de valores por uma aceitação axiologicamente fundamentada.
Poderia uma cultura sobreviver, se tolerasse subculturas “intolerantes”? Que diferença haveria, por exemplo, entre tolerar e aceitar que alguém fosse homossexual, ateu…? Que diferença haveria entre tolerar a passividade de um educador perante atos inaceitáveis e aceitar que se devesse colocar limites a um colapso ético?
A tolerância confundida com a permissividade permitiria que os intolerantes impusessem as suas regras (ou caprichos), negando a assimetria entre direitos e deveres.
Houve quem, teoricamente, se posicionasse a propósito da tensão entre tolerar e aceitar.
Burke avisava-nos de que existe um limite em que a tolerância deixa de ser virtude. Balmes dizia que não é tolerante quem tolera a intolerância. Popper sintetizava a tensão numa frase:
“Não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes, se não corremos o risco de destruição de nós próprios e da própria atitude de tolerância.”
Dois dos maiores mestres portugueses do século XX se pronunciaram. Agostinho da Silva: “Porquê tolerar? Parece-me ainda pior do que perseguir. No perseguir há um reconhecimento do valor.”
E José Saramago: “Tolerar a existência do outro e permitir que ele seja diferente ainda é muito pouco. Quando se tolera, apenas se concede, e essa não é uma relação de igualdade, mas de superioridade de um sobre o outro.”
Amanhã, atrever-me-ei a contextualizar a tensão entre tolerância e aceitação no contexto educacional. Poderíamos ser “tolerantes”, sabendo que essa “tolerância” era causa de múltiplas violências?
