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Cidade do Porto, 25 de dezembro de 2043

No meu Natal brasileiro, um Presépio mostrava um Menino Jesus negro em uma Amazônia devastada. Um bebê negro, filho de uma virgem negra, rodeado de querubins indígenas. Essa imagem me transportou para a “Antologia Poética” de um Miguel, que vivera em Leopoldina e que, assim, evocava o Natal português:

“Nasce mais uma vez, Menino Deus! 

Não faltes, que me faltas, neste Inverno gelado. 

Nasce nu e sagrado, nasce e fica comigo, secretamente, até que eu, infiel, te denuncie aos Herodes do mundo

Até que eu, incapaz de me calar, devasse os versos e destrua a paz, que agora sinto, só de te sonhar.”

A memória de versos misturava à memória gustativa de arroz-doce e rabanadas a do aconchego da lareira da casa de Vila das Aves. Hoje, desfilam pelos meus olhos fechados memórias de avós, pais e mães, irmãos, de uma multidão de gente simples autora dos meus primeiros natais. 

O meu “Natal dos Simples” aconteceu num dezembro dos inícios dos anos sessenta. Tenho um pressentimento de que já dele vos falei, mas cá vai.

Pouco passava da meia-noite, saí da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, entoando o cântico final da Missa do Galo:

“Paz na Terra, Paz na Terra e Glória a Deus nos altos céus. Glória ao Filho, Glória à Mãe. A Paz na Terra! A Paz na Terra!”

Noite fria foi aquela! Temperatura abaixo de zero e eu ia descendo a rua, que me levaria a casa, cantando, possuído por um esbraseante espírito natalício. Até que… numa reentrância de loja chique, deparei com um quadro, que me era familiar. Fora o último que vira, ao sair da igreja: a “Pietá”. 

Uma mulher acalentava uma criança. Aturdido, escutando o seu soluçar, me aproximei, sem saber o que fazer. Ao seu lado, um velho jazia, tremendo. debaixo de uma manta esburacada. Ao seu redor, começava a formar-se uma fina camada de geada. Também chorava. 

Debrucei-me sobre aquele corpo franzino, passei a minha mão pelo seu enrugado rosto. Perguntei o que poderia fazer por ele. Com voz trémula, me disse:

“O que eu quero, meu filho é que a morte não demore a chegar. Vai, meu filho, vai! Deixa-nos. Vai para casa”. 

Fui me afastando, possuído por um estranho sentimento. Mais abaixo, numa esquina da Praça da Liberdade, deparei com duas prostitutas seminuas, tão trémulas quanto os moradores de rua. Em vão, esperavam clientes, mas... era Noite de Natal.

Senti vontade de correr, fugir dali, fugindo não sabia de quê. Exausto, quase chegado a casa, sentei-me nos degraus de pedra das Escadas da Vitória. Subitamente, soltou-se um mar de lágrimas feitas de impotência, de raiva, choro de indignação.

No seu “Conto de Natal”, Charles Dickens diz-nos:

“Talvez o Natal venha mostrar o sentimento de amor, amizade, gentileza e ternura. Talvez, o Natal seja a data mais introspetiva do calendário. Mesmo anunciando o nascimento do menino Deus o Natal é uma data triste.” 

E o Poetinha, no seu “Poema de Natal”, confirma:

“Para isso fomos feitos: / Para lembrar e ser lembrados / Para chorar e fazer chorar / Para enterrar os nossos mortos / Por isso temos braços longos para os adeuses / Mãos para colher o que foi dado / Dedos para cavar a terra. / Assim será nossa vida: / Uma tarde sempre a esquecer…”

Mas a Cora Coralina revela um Natal do otimismo:

“Tem presente de montão / no estoque do nosso coração / e não custa um tostão! / A hora é agora! / Enfeite seu interior! / Sejas diferente! / Sejas reluzente!”

Concluirei esta já longa cartinha com uma mensagem do amigo Rubem:

“Nada melhor do que enfeitar o nosso interior. Neste Natal construa uma comunidade de afetos. Comece pensando o bem, querendo o bem e fazendo o bem. 

Feliz Natal!”


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