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Diomira, 25 de janeiro de 2044

Queridos netos, aprecio o vosso interesse em conhecer questiúnculas passadas do reino da educação. E, porque me perguntastes o que seriam as sete pragas educacionais, delas vos falarei. Na cartinha de hoje, da praga da Normose Educacional.

Como sabeis, um artigo publicado na Folha de São Paulo deu origem ao Movimento dos RC, ao Terceiro Manifesto pela Educação, à CONANE e outros derivados. O artigo dava pelo título de “Escolas Invisíveis”. Mas, decerto, não sabereis onde fui buscar inspiração para redigir esse artigo.

Uma dúzia de anos antes, tinha lido um livro do Ítalo Calvino: “As Cidades Invisíveis”. E, ao longo de mais de cinquenta anos, estabeleci um secreto paralelo entre as cidades descrita por Marco Polo e as cidades, lugares, projetos por onde gastei toda uma vida de educador. 

Agora, que devo estar prestes a partir, vos revelo algo que guardei no baú das velharias e que desejaria fosse livro de publicação póstuma: “Estórias que Nunca Hei-de Contar”. Falar-vos-ei apenas do capítulo das Sete Pragas. O restante será dado a conhecer, quando o vosso avô, definitivamente, fechar os olhos.

Muitas das cidades que Marco Polo descreve são lugares alienantes e solitários, e algumas delas apresentam catacumbas, cemitérios enormes e outros locais dedicados aos mortos. Mas, o livro "Cidades Invisíveis" não é uma obra totalmente sombria:

“Corre um fio invisível que liga um ser vivo a outro por um momento, depois se desenrola, depois se estende novamente entre pontos móveis enquanto desenha novos e rápidos padrões, de modo que a cada segundo a cidade infeliz contém uma cidade feliz, inconsciente de si mesma existência.”

Me agarrei a esse “fio invisível”, como boia salvadora do naufrágio de mim, enquanto educador. Porque a praga da normose se tinha espalhado como câncer embotador de sentidos. O sem-sentido do sistema de ensinagem era naturalizado. E eram infrutíferas quase todas as tentativas feitas para desocultar tristes realidades. 

Se eu perguntava a um dador de aula se continuaria a “dar aula” sabendo que nem todos os seus alunos aprenderiam”, a resposta era um impropério ou ameaça. A normose se instalara e esse dador de aula continuava tão antiético, quanto antes o era. 

Normose era a tendência patológica para condicionar o próprio comportamento, para seguir normas de conduta socialmente estabelecidas, em prejuízo da autoexpressão pessoal, sobrevalorizando-se a opinião e a aceitação social dos outros.

Precavido contra a normose educacional, o meu amigo Miguel Angel escreveu um artigo, em que descrevia o que chamava de “fagocitose do educador”: 

Fagocitose é a propriedade que algumas células têm de capturar e ingerir outras células. Simplesmente comem-nas. Destroem-nas.

No sistema social, no sistema educativo, na escola, também há mecanismos de fagocitose. São as acusações e desqualificações pessoais contra aqueles que não desistem de trabalhar para uma melhor educação. Eis alguns juízos desqualificativos:

“Tem problemas afetivos (e é por isso que se dedica, que trabalha). 

É um trapaceiro. Faz bom trabalho por interesse de ascender, para ter Muito Bom, para adular os chefes, para receber uma recompensa.

Tem poucas luzes”. Atribuir a uma pessoa a escassez de dotes críticos ou criativos, considerá-la imbecil é uma forma de se manter na trincheira dos espertos. Ser inteligente e não “fazer nenhum”, ganhar muito com o mínimo de esforço.

Tem problemas com a mulher (ou com o homem).”

Netos queridos, imaginais os trágicos efeitos de mais de um século de normose educacional?


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